Thaís Hiramoto (*)

Dono da maior biodiversidade do planeta, o Brasil abriga mais de 20% das espécies da flora e da fauna terrestres.

Engana-se, porém, quem pensa que toda essa riqueza se restringe aos fatores naturais: o país possui também cerca de 200 povos indígenas e diversas comunidades tradicionais que atuam em harmonia com a floresta para garantir sua sobrevivência, como os seringueiros, caiçaras, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos, pescadores e agricultores familiares.

Foi desse convívio harmonioso que surgiu o conceito de sociobiodiversidade, que define a relação das cadeias produtivas das florestas com os povos tradicionais da região. O objetivo é conservá-las e, ao mesmo tempo, fazer o uso sustentável dos produtos da biodiversidade – muitos deles, utilizados pela indústria alimentícia.

Para citar alguns exemplos, podemos destacar as manteigas e os óleos obtidos a partir de frutos e sementes como o cupuaçu, a castanha-do-Brasil, o coco licuri, o açaí e o maracujá. Eles podem ser acrescentados em receitas tradicionais do dia a dia para fazer pães, bolos, cookies, molhos e maioneses, em busca de fortificar nutricionalmente os alimentos, além de proporcionar sabores exclusivos.

No entanto, nesse contexto de sociobiodiversidade, qual é o papel das empresas do setor alimentício? Certamente, não se resume a fazer o uso de ingredientes naturais na composição de produtos finais nem à preocupação com a saudabilidade que eles podem oferecer, mas sim, a um fator importantíssimo: a forma como os insumos são coletados na natureza.

As companhias devem garantir que esse processo ocorra de forma sustentável, de modo que as florestas fiquem em pé e haja recursos naturais suficientes para as próximas gerações. Outra questão relevante é a parceria direta com as comunidades locais, geralmente responsáveis pelo plantio, pela colheita e pela coleta dos frutos. Manter essa forma de atuação, além de conservar os biomas, faz com que os produtores locais tenham um trabalho, uma fonte de renda justa e digna.

E, mais que isso, faz com que descubram o verdadeiro valor da floresta viva e, assim, atuem em sua defesa, contra o desmatamento e em prol de um desenvolvimento econômico local e sustentável.

Frente a esse raciocínio, só temos uma conclusão: cada vez mais, as indústrias do setor alimentício precisam considerar os fatores sociais e ambientais em suas estratégias de atuação, com soluções inovadoras, viabilidade econômica e com a compreensão da sua importância no movimento de conservação de toda a riqueza da sociobiodiversidade brasileira.

(*) - É especialista em sustentabilidade da Concepta Ingredients, Unidade de Negócio do Grupo Sabará especializada no desenvolvimento de soluções naturais e tecnológicas, com foco nas indústrias de alimentos, bebidas, nutrição animal e farmacêutica veterinária.