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Quilombo a 50 km de Brasília luta para manter território e identidade

Em uma área sossegada, a cerca de 50 km de Brasília, vive a quinta geração de remanescentes quilombolas na comunidade do Mesquita, com resquícios centenários e costumes tradicionais                                                                         

José Cruz/ABr

O Quilombo do Mesquita, comunidade bicentenária situada a 50 km de Brasília.

 

Débora Brito/Agência Brasil

Pouco conhecido pelos brasilienses e moradores do entorno da capital, o Quilombo do Mesquita, situado na Cidade Ocidental (GO), completou 272 anos no último 19 de maio com o desafio de manter seu território e identidade.

O quilombo ganhou certa visibilidade nas últimas semanas depois da publicação de uma resolução do Incra que aprovou a redução do território quilombola em mais de 80% da extensão original. A resolução foi publicada em 24 de maio no Diário Oficial da União, mas ainda passa por processo de análise. A notícia gerou muita polêmica e surpreendeu os quilombolas que agora se mobilizam para impedir a redução drástica do território.

Em meio ao desenvolvimento urbano, a comunidade rural resiste às pressões política e econômica sobre o território. O tempo ali ainda corre mais devagar. O silêncio e a beleza da vegetação nativa do cerrado dominam a área onde foram erguidas as habitações rústicas dos mesquitenses. A presença predominante é de negros. Nas estradas de terra, pouquíssimos carros e ônibus escolares levantam a poeira típica do período da seca no Centro-Oeste. E nascentes de água são preservadas em meio a hortas comunitárias e animais domésticos.

Acervo de memória da Comunidade Quilombola de Mesquita, presente na região da Cidade Ocidental há mais de 270 anos.Muitos idosos, alguns centenários, ainda vivem no quilombo do Mesquita. São eles que mantêm a relação estreita com a terra e transmitem os relatos sobre a origem e história da comunidade aos mais jovens. Segundo o testemunho oral corrente, que está registrado nos relatórios da Fundação Palmares e do Incra, o quilombo nasceu quando três escravas herdaram parte das terras do fazendeiro José Correia de Mesquita. As propriedades da época haviam se desenvolvido em meio à busca pelo ouro, atividade econômica que predominou em Goiás no século 17 e entrou em decadência no final do século 18.

No entorno das propriedades surgiu a cidade de Santa Luzia, atual Luziânia, onde viviam em meados de 1760 cerca de 13 mil negros escravizados e 3,5 mil pessoas livres que compunham a elite do município. Libertas do regime escravocrata, as mulheres beneficiadas pela doação de Mesquita permaneceram no território onde formaram suas famílias e mantiveram as tradições do plantio e costumes da cultura negra. Elas também abrigaram nas terras herdadas negros escravizados que fugiam de outras propriedades da região.

Comunidade corre o risco de ter território reduzido em mais de 80%.O primeiro registro da terra ocorreu em 1746. O reconhecimento como quilombo, no entanto, chegou apenas em 2006, quando a Fundação Cultural Palmares concluiu os estudos antropológicos para delimitar a região. Hoje, o quilombo abriga na área rural 785 famílias que tentam manter as tradições deixadas pelos ancestrais. Outras 435 famílias quilombolas do Mesquita vivem nas cidades do entorno de Brasília. A região se destaca pela produção artesanal da marmelada. O doce do marmelo, fruto típico da região, é uma das principais fontes de renda das famílias. Há mais de 100 anos, a comunidade celebra todo mês de janeiro a tradicional Festa do Marmelo, que atrai de cinco a seis mil pessoas por ano. Os moradores relatam que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi um dos principais compradores de doces do quilombo.

Na área, também se planta milho, feijão, cana, mandioca, hortaliças, entre outras culturas, e são criados porcos, galinhas e gado. A religiosidade, outra marca da comunidade, também é preservada na rotina dos quilombolas, principalmente nos meses de agosto, quando ocorre a Folia de Nossa Senhora da Abadia, padroeira do quilombo. É na Igreja que leva o nome da padroeira que a comunidade mantém um acervo com objetos, fotografias e documentos históricos.

Acervo de memória da Comunidade Quilombola de Mesquita.Um dos pontos mais ricos do território é o da chamada Fazenda Água Quente, que corre o risco de sair do quilombo se o Incra efetivar a decisão de reduzir o território. “Aqui é uma santa paz, um lugar muito maravilhoso. Se vir esses condomínios pra cá, acabou o sossego. E outra, as áreas de reserva e nascentes de água vão acabar tudo,” alerta Erismar Braga Ramos, bisneto de escravos que vive com a família na primeira sede da fazenda.

Além da luta pela terra, a comunidade enfrenta o desafio de ser respeitada como quilombola pelos próprios vizinhos. As cidades do entorno ignoram a identidade dos quilombolas, mesmo com a presença deles há mais de duzentos anos na região. Os quilombolas reclamam que a comunidade é vista como um “povoado” e não há nenhuma sinalização com a referência quilombola nas vias de acesso ao território.

“Nas escolas daqui, as professoras não podem falar de quilombo, não podem trabalhar a identidade, não tratam do tema como deveria. O quilombo é invisível”, conta Sandra Braga, uma das principais lideranças do Mesquita e da Coordenação Nacional de Comunidades Rurais Quilombolas (Conaq),

No território tem uma escola de ensino fundamental e uma unidade de saúde, mas os quilombolas querem melhorar o acesso a políticas públicas na região para diminuir a dependência de Brasília. Assim como no início da história do quilombo, hoje são as mulheres que lideram as principais ações em busca de melhorias para a comunidade. “Minha mãe conta que mesmo criança eu ficava sempre com os mais velhos. Fui crescendo e sabendo a importância da terra. O que me ajudou muito foram os contos, os relatos deles”, relembra Sandra, formada em turismo e sociologia.

Quilombola Sandra Braga, 50 anos, ao lado do poster dos avós com o documento de certificação da terra nas mãos.Na última semana, o Mesquita sediou pela primeira vez a Plenária Nacional da Conaq, que contou com a presença de mais de 90 lideranças quilombolas de 24 estados que relataram diferentes desafios enfrentados pelas comunidades de todo o país. “Você não está reduzindo a terra, você está reduzindo sua história. E o que me entristece é a maneira como eles abordam as pessoas da comunidade como se não fosse direito do quilombola lutar pelo seu território, como se fosse buscar o que não é dele”, relata Antônio Crioulo, líder da Comunidade das Crioulas, em Pernambuco.

Já Bernardete Pacífico, líder do quilombo da Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA), teme que o caso do Mesquita possa aumentar a violência na região. Ela perdeu seu filho de 31 anos no ano passado. O rapaz foi assassinado em meio a disputa contra grileiros de terra. “Eu estou preocupada com o Mesquita, porque a mesma ameaça que eles estão recebendo foi a que meu filho recebeu e que eu estou recebendo”, relatou Bernardete.

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