ISSN: 2595-8410 Contato: (11) 3043-4171

Brasil já teve 2 presidentes militares eleitos nas urnas

Quando subir a rampa do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro se tornará o terceiro militar a ganhar a Presidência nas urnas. Antes de Bolsonaro, que é capitão reformado do Exército, os militares que governaram o país escolhidos pelo voto popular foram Hermes da Fonseca (1910-1914) e Eurico Dutra (1946-1950)

imagem materia 15 11 2018 temporario

Hermes da Fonseca, Eurico Dutra e Jair Bolsonaro: militares escolhidos para a Presidência pelo voto popular.

Foto: Reprodução e Arquivo Pessoal Família Bolsonaro

Ricardo Westin/Ag. Senado/Arquivo S

Os presidentes do passado, apesar de separados por três décadas, tinham muito em comum. Hermes e Dutra estavam no topo da hierarquia militar, eram idolatrados na caserna, ocupavam postos do alto escalão do governo e se lançaram na disputa pelo Palácio do Catete como candidatos do establishment.

Hermes era marechal e fora ministro da Guerra do presidente Affonso Penna. Dutra ocupava o posto de general e também chefiara o Ministério da Guerra, no governo ditatorial de Getúlio Vargas. Como ministros, executaram medidas que modernizaram as Forças Armadas, o que lhes rendeu o apoio maciço das tropas.

Os dois venceram a eleição sem grande esforço. Hermes foi o candidato oficial das oligarquias estaduais, que manipulavam a seu favor as urnas da República Velha. Na época de Dutra, as votações não sofriam tanta fraude. O que contou foi o apoio público que recebeu do sempre popular Vargas.

Hermes e Dutra também tinham suas diferenças. No Brasil de 1910, ser candidato militar era um problema. Em 1945, um trunfo.

Quem enfrentou o marechal Hermes nas urnas foi o senador Ruy Barbosa (BA). Segundo documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, Ruy fez discursos em que atacou o adversário citando justamente a sua origem militar.

— As nações, senhores, não armam seus Exércitos para serem escravizadas por eles. As nações não fazem seus marechais para que eles venham a ser na paz os caudilhos de facções ambiciosas — bradou Ruy num discurso.
Na visão dele, qualquer fardado que chegasse à Presidência transformaria o Brasil numa ditadura, tal qual haviam feito os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Hermes, por sinal, era sobrinho de Deodoro.

General x brigadeiro
Para os aliados de Hermes, o Brasil não deveria temer a farda do marechal.

— Subindo ao poder, o marechal Hermes da Fonseca fará um governo eminentemente civil, sem que as classes militares se proponham a superpor-se ao elemento civil, porque este é o compromisso assumido por Sua Excelência perante o país, além de que na sociedade já vai passando a fase guerreira — argumentou o senador Cassiano do Nascimento (RS).

Ruy Barbosa batizou sua candidatura de Campanha Civilista. O chefe da nação, para ele, tinha que ser civil. Sem o suporte das elites estaduais, contudo, a Campanha Civilista naufragou.

foto bolsonaro2 15 11 2018 temporarioNa campanha do general Dutra, ao contrário, a patente militar não serviu de arma para os adversários. Até porque o principal oponente também era um fardado, oriundo da Aeronáutica: o brigadeiro Eduardo Gomes.

O consultor legislativo do Senado Fernando Trindade, que tem formação em história, explica:

— Dutra governou logo depois que a Segunda Guerra Mundial acabou e no momento em que a Guerra Fria se iniciou. Nesse contexto belicoso, era natural que um militar assumisse o poder. Isso ocorreu não só no Brasil. Tivemos Churchill no Reino Unido, Perón na Argentina, Eisenhower nos Estados Unidos, De Gaulle na França.

No Brasil, militares apareceriam nas cédulas eleitorais até o golpe de 1964. Em 1950, Getúlio Vargas derrotou Eduardo Gomes, candidato outra vez. Em 1955, JK venceu o general Juarez Távora. Em 1960, Jânio Quadros bateu o marechal Henrique Lott.

Dutra tomou posse trajando farda, mas prometeu que não faria um governo militar e que seria “o presidente de todos os brasileiros”. A promessa foi cumprida. Ele permitiu que a Assembleia Nacional Constituinte elaborasse uma nova Constituição com total liberdade. Não reagiu sequer quando os constituintes lhe reduziram o mandato de seis para cinco anos.

— Depois do longo período de exceção em que vivemos [a ditadura do Estado Novo], o presidente Eurico Dutra aí está altaneiro, discreto e modesto, sem procurar popularidade barata, preocupado somente em cumprir o seu dever — discursou o senador Novaes Filho (PSD-PE).

— O senhor presidente conhece perfeitamente suas atribuições e diz, proclama, grita e tem demonstrado com a eloquência dos exemplos que jamais sairá do seu “livrinho vermelho”, que é a Constituição — acrescentou o colega Olavo Oliveira (PSP-CE).

Enquanto Dutra encerrou o mandato com a popularidade nas alturas, Hermes saiu execrado do Catete. Seu governo foi marcado por um truculento estado de sítio, pela execução dos rebeldes da Revolta da Chibata e pela intervenção federal em diversos estados, com a derrubada de governadores e o bombardeio de Salvador.
Viúvos no Catete
No âmbito familiar, uma infeliz coincidência aproxima Hermes e Dutra. Ambos ficaram viúvos durante o mandato. A mulher do marechal, Orsina da Fonseca, morreu em 1912. No dia seguinte, o senador Nilo Peçanha (RJ) propôs ao Senado que criasse uma comissão para levar um abraço de condolências ao presidente.

— Penso que o Senado não é insensível ao desgosto por que acaba de passar o chefe da nação pela perda irreparável de sua estremecida esposa — afirmou Nilo, que obteve a aprovação de sua proposta por unanimidade. Hermes voltaria a se casar em 1913, com a caricaturista Nair de Teffé.

A mulher do general, Carmela Dutra, morreu em 1947. Católica radical, ela tinha o apelido de Dona Santinha.

imagem materia 02 15 11 2018 temporario

Imprensa noticia posse do marechal Hermes, em 1910, e vitória do general Dutra, em 1945: militares que chegaram à Presidência pelo voto popular.

Foto: Biblioteca Nacional

— O infausto acontecimento privou a sociedade brasileira de um dos seus mais nobres ornamentos. Dona Carmela enobreceu a sociedade pela inteligência e pela força militante da sua profunda fé católica — discursou o senador Georgino Avelino (PSD-RN).

O Brasil também teve militares que viraram presidentes sem passar pelo crivo popular. Foram sete, que chegaram ao poder após golpes. Os primeiros foram Deodoro e Floriano, protagonistas da derrubada da Monarquia, em 1889. Depois, os generais da ditadura de 1964: Humberto Castello Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. O historiador e militar reformado Sergio Murillo Pinto, autor do livro Exército e Política no Brasil, afirma:

— Os militares, em mais de uma ocasião, entraram na política atropelando a Constituição. Hermes e Dutra mostram que houve exceções. Hermes fez um governo desastroso, mas Dutra garantiu a volta do país à normalidade democrática. Para a democracia, o importante é que o presidente e o governo não sejam tutelados pelos militares e que a Constituição seja sempre respeitada.

Mais artigos...

  1. Tecnologia poderá ajudar na implantação do novo Ensino Médio
  2. Inadimplência atinge 62 milhões de brasileiros e afeta 3% do crédito
  3. Encerrada há um século, Primeira Guerra extinguiu impérios
  4. Estigmas e tabus: por que o câncer de ontem não é o mesmo de hoje
  5. ONG oferece assessoria a empreendedores no Brasil
  6. Ministros do STF defendem necessidade de reforma política
  7. Sem obras em dois distritos, moradores de Mariana mostram apreensão
  8. Em novembro de 1955, crise fez Brasil ter 3 presidentes numa única semana
  9. General Heleno defende uso de atiradores de elite contra criminosos
  10. Preservar a Constituição e unir sociedade são prioridades de Bolsonaro
  11. Negros e brancos de alta renda moram em locais distantes e distintos
  12. Antes da Eletrobras, Brasil vivia rotina de apagões
  13. A água no Brasil: da abundância à escassez
  14. Alimentação está na pauta do novo Congresso
  15. Geração nem-nem já soma 11 milhões de jovens
  16. Projeto pretende retardar o envelhecimento do sistema imune humano
  17. Comida síria transporta imaginário de refugiados para lugar que não existe mais
  18. ONU: nenhum país consegue garantir direitos reprodutivos das mulheres
  19. Estudo destaca estreita relação entre álcool, drogas e violência
  20. Brasil avança, mas tem desafio para cumprir meta de emissão de carbono
  21. Apenas 3,3% dos estudantes brasileiros querem ser professores
  22. Na primeira eleição presidencial, Brasil teve eleitor de menos e candidato demais
  23. Oito em cada dez idosos têm percepção positiva da terceira idade
  24. Senado analisa aposentadoria especial para condutores de ambulância
  25. Metade das cidades do país ainda não dá voz aos idosos
  26. Prédio do Museu Nacional já preocupava Senado do Império
  27. Referência da história contemporânea, Constituição completa 30 anos
  28. Desemprego pauta candidatos e será desafio ao próximo presidente
  29. Em 15 anos, Estatuto do Idoso deu visibilidade ao envelhecimento
  30. 30 anos da Constituição: Principal símbolo do processo de redemocratização nacional
  31. Rebanho de bovinos e produção de leite caem, diz pesquisa do IBGE
  32. Cresce preocupação com desperdício de alimentos em todo o mundo
  33. Empresários brasileiros apostam em alimentos e bebidas saudáveis
  34. Secretário admite que pode fechar o ano sem elucidar caso Marielle
  35. Futuro presidente terá de enfrentar financiamento do SUS
  36. Apesar de aumento, menos de 40% das cidades têm política de saneamento
  37. Metade das mulheres férteis em SP usaram pílula do dia seguinte
  38. Animais criados livres no Pampa fornecem carne mais saudável
  39. Primeiro transhomem a ser operado no Brasil, João Nery prepara livro
  40. Avança o Indicador de inadimplência do consumidor; país tem 62,9 milhões de negativados
  41. Filtro colorido aumenta velocidade de leitura de crianças com dislexia
  42. Manual ensina a cuidar da saúde bucal de crianças com autismo
  43. Iniciativas do Judiciário combatem e reparam violência contra a mulher
  44. Epidemia de gripe espanhola no Brasil mata presidente, faz escolas aprovarem todos os alunos e leva à criação da caipirinha
  45. Reforma tornou ensino profissional obrigatório em 1971
  46. Museu do Ipiranga questiona os sentidos da independência
  47. Governo vai liberar recursos emergenciais para o Museu Nacional no Rio
  48. Alunos deixam ensino fundamental com desempenho pior do que entraram
  49. Câmara discute propostas polêmicas sobre orgânicos e agrotóxicos
  50. Especialistas apontam epidemia de cesarianas no Brasil
  51. Foco de instabilidade, impacto migratório é desafio em Pacaraima
  52. Há 55 anos, Senado ajudou a derrubar parlamentarismo
  53. Especialistas debatem soluções tecnológicas para ajudar o agronegócio
  54. Denúncias de feminicídio e tentativas de assassinato chegam a 10 mil
  55. Merenda escolar é vigiada no país por 80 mil “detetives”
  56. Dos 27,4 mil registros de candidaturas, 8,4 mil são de mulheres
  57. Jogadores contam histórias do preconceito enfrentado na Europa_2
  58. Subutilização da força de trabalho atinge 27,6 milhões no Brasil
  59. Ofensiva contra o lixo: país se engaja em debate sobre a coleta seletiva
  60. Seis em cada dez crianças no Brasil vivem na pobreza, diz Unicef
  61. Manifestações afros são incorporadas à cultura sem valorização dos negros
  62. Ruy Barbosa desafiou elite e fez 1a campanha eleitoral moderna
  63. Sarampo: especialista alerta sobre a importância da vacinação
  64. Casos de suicídio motivam debate sobre saúde mental nas universidades
  65. Mortes de presos aumentam 10 vezes em quase vinte anos no Rio
  66. Petróleo, combustíveis e Refis reforçam receitas da União este ano
  67. Mulheres que fizeram aborto relatam momentos de medo e desespero
  68. Supremo Tribunal Federal debate hoje a descriminalização do aborto
  69. 44% dos empresários do varejo e de serviços estão otimistas com economia para o segundo semestre
  70. Ecossistemas tropicais abrigam mais de três quartos das espécies de plantas e animais
  71. Metade dos docentes no país não recomenda a própria profissão
  72. Projeto cria regras para proteger dados pessoais
  73. Censo mostra aumento da área destinada à agricultura no país
  74. População brasileira deve chegar a 233,2 milhões em 2047, diz IBGE
  75. Construtoras acreditam em multa maior por distrato; Procons condenam
  76. Museu Paulista e Sesc Ipiranga apresentam “Papéis Efêmeros”
  77. Radiografia do ativismo indica revitalização do papel político das cidades
  78. Canecão foi referência para música brasileira e revelou grandes nomes
  79. Saúde alerta que as baixas coberturas vacinais acendem a luz vermelha
  80. Em minoria, mulheres buscam liderar negócios de inovação e tecnologia
  81. Lei de proteção de dados vai mudar cotidiano de cidadãos e empresas
  82. Estudo destaca papel central da música nos ritos de incorporação da Umbanda
  83. Cientistas vão treinar robôs para identificação automática de plantas
  84. Combate a Lampião quase entrou na Constituição de 1934
  85. Estudo aponta 30 profissões que estão surgindo com a indústria 4.0
  86. Na era Trump, imigrantes buscam espaço na política dos Estados Unidos
  87. Acompanhar tramitação de lei ainda é desafio
  88. O maravilhoso universo das plantas e a força dos nutrientes
  89. Junho deixou sementes de participação popular
  90. Número de brasileiros em áreas de risco passa de 8 milhões, diz IBGE
  91. Vida verde: benefícios do vegetarianismo e veganismo à saúde atraem cada vez mais brasileiros
  92. Uso de energia solar no campo cresce com usinas flutuantes
  93. Vinho é a bebida alcoólica preferida dos brasileiros na melhor idade, aponta pesquisa
  94. Músicos amadores criam grupos para reviver antigos sambas esquecidos
  95. Projetos buscam evitar tragédias como o desabamento de edifício em São Paulo
  96. Quilombo a 50 km de Brasília luta para manter território e identidade
  97. Lei Seca soma dados positivos após 10 anos, mas levanta questões
  98. Junho aumenta riscos de acidente com fogos e balões
  99. Dom Pedro I criou Supremo Tribunal com poderes esvaziados
  100. "Sem solução, quem matou terá carta branca", diz pai de Marielle

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP

Contato: (11) 3043-4171