Ensino de literaturas africanas precisa de melhorias

“Apesar de a Lei ter sido promulgada em 2003, ainda hoje encontramos universidades que não trabalham esse conteúdo na formação docente”. 

“Muitos abordam a literatura africana e afro-brasileira porque são negros, outros porque se interessam pelo tema, mas há os que não o fazem...”

Dandara-copg temporario

 

Valéria Dias/Agência USP de Notícias

A Lei Federal 10639/03 determina que os conteúdos sobre história e cultura africana e afro-brasileira devem ser abordados em todos os níveis de ensino das redes privada e pública de todo o País.

Contudo, a abordagem em sala de aula ainda depende mais da iniciativa pessoal do professor, incluindo a busca por material didático. Há também outros problemas que vão desde o preconceito de professores, pais e alunos, passando pelo desconhecimento da Lei e a deficiência na formação docente, até falhas no poder público.

“Apesar de a Lei ter sido promulgada em 2003, ainda hoje encontramos universidades que não trabalham esse conteúdo na formação docente”, aponta o professor de Língua Portuguesa e Literatura, André de Godoy Bueno, autor da dissertação de mestrado Literaturas africanas e afro-brasileira no ensino fundamental II. De acordo com o pesquisador, há também uma falha no poder público, desde o MEC até as secretarias estadual e municipal de educação.

literatura africana-848x395 temporario“Era necessário oferecer formação contínua para esses professores, pois os formados antes de 2003 provavelmente não viram isso durante a faculdade. Se ele não se interessar em fazer cursos, não terá esse conteúdo e não vai trabalhar isso com os alunos”, diz. Bueno aplicou um questionário com 15 perguntas a 30 professores, sendo 15 do município de São Paulo, das diretorias regionais de São Miguel Paulista, Butantã, Guaianazes e Pirituba; e 15 de escolas estaduais das cidades de Guarulhos, Mauá, Indaiatuba e Marília. As perguntas abordavam desde o conhecimento da Lei até a forma de aplicação do conteúdo.

Ele também reuniu, para uma roda de conversa, 3 desses professores, sendo 2 da rede estadual e 1 da municipal. A pesquisa seguiu um método qualitativo de análise, que oferece um quadro de observação de determinado fenômeno por meio de uma amostra, sem que haja a mensuração totalizante, em função de as redes educacionais pesquisadas terem enormes proporções.

000000[1] temporarioConteúdo importante, mas nem sempre aplicado
Segundo Bueno, praticamente todos consideraram a Lei importante, mas a aplicação prática em sala de aula somente é feita por 2/3 dos entrevistados, assim: 10 professores não abordavam conteúdo sobre o tema. Apesar disso, a grande maioria afirmou conhecimento da Lei. Ao comparar as redes de ensino, o pesquisador constatou que, dos 15 professores da rede municipal, 11 trabalham com o conteúdo de literaturas africanas e afro-brasileiras em sala de aula. Já na rede estadual, são 9 os professores que trabalham o tema.

Bueno acredita que isso acontece porque a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo realiza um trabalho contínuo de formação com os seus professores e esse conteúdo é abordado. “Na roda de conversa, os professores da rede estadual disseram que não há essa formação específica e nem sempre aborda esse tema no dia a dia”, diz. “Nesse aspecto, o professor do município está mais amparado que o do estado no que se refere a cursos de formação”, aponta.

Preconceitos
Na roda de conversa, foram relatados alguns casos de preconceito. Um dos professores contou que uma colega de profissão de uma escola municipal resolveu trabalhar o significado da palavra “macumba” (que pode ser um instrumento musical ou uma árvore). “Mas alguns pais reclamaram, pois acreditaram tratar-se de uma abordagem religiosa. E a direção da escola pediu para a professora não realizar o trabalho”.

Em outro relato, uma professora do estado conta que utilizou, no ensino médio, um documentário a respeito de rituais religiosos africanos para falar sobre cultura. “Dois alunos se levantaram e se recusaram a assistir, pois disseram que aquilo não fazia parte da religião deles, que eram contra e se retiraram da sala”, conta Bueno.

Segundo o pesquisador, muitos professores também têm preconceito e acham que a literatura africana vai falar de aspectos religiosos. “Oferecer uma boa formação pode quebrar isso, mas precisava ser algo contínuo e contundente, e desde a universidade”.

untitlede temporarioApesar de previsto em Lei e de o conteúdo ser obrigatório, o planejamento e a aplicação dos conteúdos acaba sendo muito particular por parte de cada professor. “Ele precisa trabalhar literatura com os alunos, mas geralmente fica livre na escolha do texto literário”, explica. “Muitos abordam a literatura africana e afro-brasileira porque são negros, outros porque se interessam pelo tema, mas há os que não o fazem ou por não se interessarem ou por não terem formação específica”.

E como abordar a história e a cultura de um continente com mais de 50 países independentes, com histórias, culturas e literaturas tão variadas e distintas? O pesquisador sugere que a abordagem poderia ser a respeito dessas diferenças. Ou sobre a colonização, que aproxima o Brasil de tantos países africanos que passaram pelo mesmo processo. Outra opção é trabalhar com autores de países africanos de língua portuguesa, como o moçambicano Mia Couto, o português radicado em Angola, José Luandino Vieira e tantos outros. Entre os autores afro-brasileiros, há clássicos como Lima Barreto, do mesmo modo que há escritores contemporâneos, como é o caso de Cuti, pseudônimo do escritor Luiz Silva, além de inúmeros outros nomes que poderiam ser estudados durante a escolarização.

Mais artigos...

  1. Arqueologia na Amazônia elucida mistério de 500 anos
  2. Cérebro induz à escolha de alimentos calóricos para armazenar energia
  3. Obesidade pode interferir na aprendizagem das crianças
  4. Um dia na maior universidade de aviação do mundo
  5. Jornada de refugiados inclui perigos da travessia e desafios da integração
  6. Engraxates ambulantes influenciaram no samba paulistano
  7. Mais tempo para mães de prematuros
  8. Com diferentes estilos e histórias, 355 blocos animam carnaval paulistano
  9. Mesmo com crise, escolas prometem carnaval luxuoso em São Paulo
  10. Perda de emprego leva pessoas para o trabalho informal
  11. Eleição de líderes partidários movimenta retomada dos trabalhos legislativos
  12. Comissões de frente surpreendem por inovações a cada carnaval
  13. Desemprego fecha dezembro em 6,9% e atinge maior taxa para o mês desde 2007
  14. Escolas de samba apostam na especialização para produzir alegorias e adereços
  15. Vegetais: crus ou cozidos?
  16. Ano Novo Chinês: conheça as tradições milenares que marcam a data_a
  17. Travestis comemoram entrada em universidades e esperam diálogo mais saudável
  18. Aída foi a primeira a voar
  19. Aquífero Guarani: estudo analisa as negociações do acordo
  20. Cães reconhecem o significado de expressões emocionais
  21. DOI-Codi sequestra e mata Manoel Fiel e diz que metalúrgico cometeu suicídio
  22. Modernidade traz novos significados aos contos de fadas
  23. Distúrbios na tireoide podem causar ansiedade e depressão
  24. Atletas se destacam pela persistência; relembre momentos das Olimpíadas
  25. Oferta de frutas é similar em regiões ricas e pobres de São Paulo
  26. Pesquisa traça panorama dos acidentes de trânsito no Brasil
  27. Liga acadêmica une teoria e prática em ação para a sociedade
  28. Licença para voar
  29. Economias de aglomeração podem ampliar desigualdade espacial
  30. A supressão da cidadania nas celas
  31. 2015: O ano que o futebol começou a limpar as chuteiras
  32. Crise migratória e atentados terroristas marcam cenário internacional em 2015
  33. Conheça mitos e verdades sobre a osteoporose
  34. Peixe do rio Negro coletado por Alfred Wallace há 160 anos é finalmente descrito
  35. Projeto proíbe revista vexatória de visitante de jovem infrator internado
  36. Pequeno príncipe, grande aviador
  37. Patrimônio histórico nas mãos das Geociências
  38. Mudança no crime organizado ajudou a reduzir homicídios
  39. Universalização da pré-escola traz desafio gigantesco aos municípios
  40. Falta de assistência no nascimento de bebês incomoda mães
  41. Gastar menos energia é melhor ação contra aquecimento global
  42. Revelando o turista-fotógrafo
  43. Cidades pretendem reduzir quase pela metade emissões de CO2 até 2020
  44. O Estatuto do Desarmamento sob ameaça
  45. Getúlio e Collor também passaram por processo de impeachment
  46. Políticas públicas também tratam a saúde como mercadoria
  47. Estudo indica que Zika vírus está cada vez mais eficiente para infectar humanos
  48. Padronizar tamanho de roupas é possível, mostra estudo
  49. Pesquisador investiga a privatização e a concentração de capital no ensino superior
  50. Desmatamento reduz tamanho de peixes em região amazônica
  51. Mobilização marca vida dos encarcerados nas prisões
  52. Decreto regulamenta publicidade de alimentos infantis
  53. Chá verde e cacau protegem contra complicações causadas por diabete
  54. Lei de drogas vem causando lotação no sistema penitenciário
  55. Paleontólogos descrevem anfíbio gigante de 260 milhões de anos
  56. O padre aviador
  57. Presídio paraibano ilustra realidade do cárcere no Brasil
  58. Às vésperas da Rio 2016, legado da Olimpíada ainda é incógnita
  59. Rota de ônibus é definida com base no conforto do passageiro
  60. Filmes levam discussão sobre cultura indígena para a escola
  61. Entenda o que é a microcefalia e porque há um aumento dos casos em Pernambuco
  62. Pesquisas na Argentina dão vantagem ao candidato da oposição Mauricio Macri
  63. Modelo de governança é adaptado para clubes de futebol
  64. Estudante precisará de carteira padronizada para pagar meia
  65. Filha de Carolina de Jesus diz que não conseguiu ler livro mais famoso da mãe
  66. Envelhecimento da população precisa ser priorizado nas políticas públicas
  67. Entenda as novas regras para aposentadoria
  68. Elefante no Cerrado exerceria papel que já foi de mastodontes
  69. Fórmula auxilia médicos a lidarem com pé diabético
  70. Trotes telefônicos podem custar R$ 1 bilhão por ano ao país
  71. Tecnologia 29/10/2015
  72. Pesquisadores criam métodos estatísticos para prever fraudes em operações financeiras
  73. As particularidades da linguagem humorística brasileira
  74. Pílula da USP usada em tratamento contra o câncer divide opiniões
  75. Como identificar infarto, AVC e angina
  76. Viagens longas propiciam uso de drogas por caminhoneiros
  77. Jogos Mundiais: com máquinas ainda trabalhando, indígenas se instalam em Palmas
  78. Religiosidade traz alívio para idosos em hemodiálise
  79. Pequeno agricultor minimiza efeito do agrotóxico à saúde
  80. Educação financeira e previdenciária deve e pode começar na infância
  81. Uma em cada quatro pessoas morre no mundo por causas relacionadas à trombose
  82. Aviação também é um negócio bizarro!
  83. Material particulado veicular predomina no nível de poluição
  84. Alunos com tendência antissocial buscam segurança na escola
  85. 15 motivos para amar/odiar a palavra “kamikaze”
  86. Brasil perde R$ 156,2 bilhões do PIB com a morosidade do trânsito em São Paulo
  87. Santos pode se tornar mais suscetível a inundações
  88. 01 de Outubro - Dia Mundial do Idoso: Como os idosos veem a saúde
  89. Tecnologia permite fabricação de gelo por meio da luz solar
  90. Sistema prevê a ocorrência de raios com 24 horas de antecedência
  91. 11 (+1) músicas que falam sobre aviões e aeroportos
  92. Dez dúvidas mais frequentes sobre o diabetes
  93. Prática de atividade física pelos pais pode proteger filhos da obesidade
  94. Práticas corporais são eficientes para a saúde coletiva
  95. Amostras de pescado apresentam conservação inadequada
  96. Postura errada pode levar a graves problemas de saúde
  97. Subfertilidade feminina: o que é e como tratar
  98. Deputados votam texto que altera Estatuto do Desarmamento
  99. Os 50 anos do TUCA – Teatro da Universidade Católica
  100. Estudo traça panorama da transição do Brasil para TV Digital

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP