Contato: (11) 3043-4171

Sem obras em dois distritos, moradores de Mariana mostram apreensão

Há três anos, cerca de 400 famílias viram suas casas serem engolidas pela lama na maior tragédia ambiental do país

tnrgo abr 301020181880mg temporario

Foto: Tânia Rêgo/ABr

 

Léo Rodrigues/ABr

Desde então, moradores dos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu, vinculados a Mariana (MG), e de Gesteira, vinculado a Barra Longa (MG), sonham com o dia em que poderão viver novamente em suas comunidades. O cronograma de reconstrução, divulgado há dois anos, não se converteu em realidade e a esperada entrega dos novos distritos em 2019 não vai ocorrer.

A reconstrução é uma obrigação da Fundação Renova, que foi criada conforme previsto em acordo firmado no início de 2016 entre a União, os governos de Minas Gerais e Espírito Santo e as mineradoras responsáveis pela tragédia: a Samarco, dona da barragem que se rompeu, e suas acionistas Vale e BHP Billiton. Cabe à Fundação Renova, com recursos das empresas, reassentar as famílias e reparar todos os danos ambientais e socieconômicos decorrentes do episódio.

Apesar dos atrasos, os moradores de Bento Rodrigues comemoraram uma vitória recente: o canteiro de obras foi implantado em maio desse ano, as licenças necessárias obtidas em julho e o trabalho de supressão de vegetação e abertura das vias já está em curso. A próxima etapa deve ser a instalação de rede de esgoto e em seguida a pavimentação. As obras devem ser concluídas em aproximadamente 22 meses e a entrega está prevista para agosto de 2020.

"As coisas não evoluíram como nós queríamos. Dois anos e meio só para sair o licenciamento. As crianças vão crescendo num ambiente diferente. Eu nunca gostei de cidade. Gostava da minha roça. Colher a couve, colher a cebolinha, tirar leite, fazer queijo. Tudo isso eu quero de novo aqui", diz José do Nascimento de Jesus, conhecido como Zezinho do Bento, presidente da Associação Comunitária de Bento Rodrigues e integrante da comissão de atingidos.

Aos 73 anos, ele visita a obra quase todos os dias e é conhecido, pela equipe da Fundação Renova, como “o maior e mais rigoroso fiscal”. "Estou aqui defendendo a minha comunidade. Tem que ser entregue do jeito que a gente quiser", acrescenta. Ele avalia que agora a obra está atingindo o ritmo desejado.

No novo Bento Rodrigues serão reassentadas cerca de 240 famílias e a reconstrução segue o projeto urbanístico aprovado pelos próprios atingidos em fevereiro, que levou em conta as atingas relações de vizinhança. Elas também escolheram o terreno, que antes pertencia à siderúrgica Arcelor Mittal e foi comprado pela Fundação Renova. No local, havia uma produção de eucalipto. A pedido dos atingidos, a madeira suprimida está sendo armazenada. Segundo o presidente da associação comunitária, a ideia é guardá-la para abastecer os fogões a lenha das futuras casas.

"Na próxima semana, começam as visitas das famílias aos lotes para que elas autorizem a construção e a entrada no projeto individual das residências na prefeitura", diz Patrícia Lois, engenheira civil e gerente dos reassentamentos da Fundação Renova, explicando que o alvará de cada casa é individual.

tnrgo abr 301020181865mg temporario

Foto: Tânia Rêgo/ABr

Canteiro de obras da Nova Bento Rodrigues.

O desenho das casas já está sendo desenvolvido. São 28 arquitetos designados apenas para fazer os projetos. "Muitos atingidos estão optando por não repetir o desenho das casas antigas. As famílias estão muito ligadas ao futuro. Novas atividades econômicas, novos hábitos que elas adquiriram nesses três anos que se passaram. Isto tudo está sendo considerado por elas", diz o arquiteto Alfredo Zanon.
Mesmo quem mantêm suas atividades pode querer um espaço mais adequado do que o anterior. "Tem o exemplo da família que produz geleia de pimenta biquinho. Como vai ser essa nova indústria deles? Na comunidade de Paracatu, tem gente pensando em agroecologia e em agroturismo. Estamos incorporando tudo isso no projeto", acrescenta Zanon.

Uma das promessas da Fundação Renova é empregar nas obras cerca de 80% de mão de obra local. Um acordo com o Ministério Público de Minas Gerais foi firmado dando aos atingidos o direito de serem contratados, caso queiram. Estima-se que, em meados do próximo ano, quando as obras estiverem mais avançadas, 2 mil pessoas possam ser empregadas.

Distrito de Paracatu
Romeu Geraldo de Oliveira, de 43 anos, morava em Paracatu e decidiu colocar a mão na massa. "Estou bem satisfeito pela comunidade de Bento Rodrigues. Mas a felicidade só estaria completa se eu estivesse trabalhando na reconstrução de Paracatu. Enquanto não começar a terraplanagem, a gente ainda fica com receio. A gente ainda tem essa sensação de que pode não sair a comunidade como a gente quer", diz.

Em sua visão, a cobertura da imprensa contribuiu para que as soluções para Bento Rodrigues tivessem prioridade. "É a menina dos olhos da mídia. Paracatu fica esquecido e a lama atingiu nossas casas do mesmo jeito. Foi questão de horas para tudo ser arrasado. Mas estou satisfeito pelos moradores de Bento Rodrigues. Eles não têm culpa de ter começado a construção da sua comunidade, enquanto a nossa está atrasada", acrescenta Romeu, que também é integrante da comissão de atingidos de Mariana.

As características do distrito de Paracatu geraram um contratempo, pois foi necessário que a Câmara dos Vereadores de Mariana aprovasse uma lei alterando o plano diretor do município. Na comunidade, os sítios ficavam no meio do núcleo urbano, o que não era previsto na legislação da cidade. Dessa forma, foi incluído no plano diretor uma nova zona especial de reassentamento. Os atingidos de Paracatu aprovaram o projeto urbanístico da nova comunidade em setembro. Cerca de 140 famílias serão reassentadas. Segundo Patrícia Lois, tão logo o licenciamento seja obtido, as obras também terão início.

Gesteira ainda sem terreno
A apreensão que toma conta dos moradores de Paracatu também é a mesma que atinge os que ficaram desabrigados em Gesteira. Lá, a situação se agrava porque nem mesmo a compra do terreno para a reconstrução foi concluída. "A gente fica sem notícias e parece que tudo caminha bem devagar", lamenta Antônio Marcos da Costa. Ele perdeu a casa onde morava, que pertenceu aos avós, e também viu a mercearia que gerenciava ser devastada pela lama.

"Tivemos uma dificuldade grande na compra do terreno. O proprietário pedindo um valor muito maior do que o valor de mercado. Agora estamos conseguindo evoluir na negociação", diz Andrea Aguiar Azevedo, diretora-executiva de engajamento, participação e desenvolvimento institucional da Fundação Renova.

A gerente dos reassentamentos Patrícia Lois diz que a Aedas, assessoria que atende os atingidos de Gesteira, começou a atuar apenas no início em novembro de 2017 e realizou um processo de escuta até fevereiro de 2018 com as 37 famílias que serão atendidas.

"Diferente de Bento Rodrigues e Paracatu, a comunidade de Gesteira não quer a construção do novo reassentamento baseada nas relações de vizinhança. Lá teremos o que chamamos de reassentamento de futuro". Ela diz que, por ter menos atingidos, as obras de Gesteira serão mais rápidas.

Gesteira não foi totalmente devastada, pois a maior parte das edificações ficava em uma área mais elevada. Antônio Marcos da Costa vive hoje neste local, em uma residência alugada pela Fundação Renova.

Mesmo tendo se mantido na comunidade, ele diz que a vida mudou completamente pois a renda atual é muito aquém da que ele tinha gerenciando a mercearia, cujo dono mora no centro de Mariana. Além disso, precisa lidar com a depressão que tomou conta de sua mãe, problema recorrente entre os atingidos, e comprar os medicamentos. "Faço o que posso. Peguei minhas economias e abri um barzinho. Mas não ganho igual, mesmo somando com o auxílio mensal da Fundação Renova".

O auxílio mensal, acordado com o Ministério Público meses após o rompimento da barragem, é destinado a todos os que perderam renda em decorrência da tragédia. Os valores são pagos por meio de um cartão e cada beneficiário recebe um salário mínimo, acrescido de 20% para cada dependente, além do valor de uma cesta básica. O auxílio não configura verba indenizatória e, no caso dos desabrigados dos três distritos, deverá ser pago por pelo menos um ano após o reassentamento.

A exemplo de Antônio, Romeu também conta que sua renda atual é insuficiente. O salário que recebe na obra de Bento Rodrigues chega a ser quatro vezes inferior ao que ele conseguia com a sorveteria em Paracatu. Além disso, morando em uma casa oferecida pela Fundação Renova na área urbana de Mariana, ele diz ter gastos superiores aos que tinha antes.

"Essa casa aqui é até muito boa, mas não é minha. Lá eu tinha um amor por cada tijolo, que fui eu que coloquei. Foram décadas de construção, fazendo tudo aos poucos, e perdi em 10 minutos. Minha casa era menor do que essa, mas lá é outro ambiente. Tinha horta, tinha galinha, tinha tudo e não precisava comprar. E tinha a sorveteria que era a única da região. Não estou nem mais ligando para indenização. Se derem minha casa de volta eu já estou feliz".

Mais artigos...

  1. Em novembro de 1955, crise fez Brasil ter 3 presidentes numa única semana
  2. General Heleno defende uso de atiradores de elite contra criminosos
  3. Preservar a Constituição e unir sociedade são prioridades de Bolsonaro
  4. Negros e brancos de alta renda moram em locais distantes e distintos
  5. Antes da Eletrobras, Brasil vivia rotina de apagões
  6. A água no Brasil: da abundância à escassez
  7. Alimentação está na pauta do novo Congresso
  8. Geração nem-nem já soma 11 milhões de jovens
  9. Projeto pretende retardar o envelhecimento do sistema imune humano
  10. Comida síria transporta imaginário de refugiados para lugar que não existe mais
  11. ONU: nenhum país consegue garantir direitos reprodutivos das mulheres
  12. Estudo destaca estreita relação entre álcool, drogas e violência
  13. Brasil avança, mas tem desafio para cumprir meta de emissão de carbono
  14. Apenas 3,3% dos estudantes brasileiros querem ser professores
  15. Na primeira eleição presidencial, Brasil teve eleitor de menos e candidato demais
  16. Oito em cada dez idosos têm percepção positiva da terceira idade
  17. Senado analisa aposentadoria especial para condutores de ambulância
  18. Metade das cidades do país ainda não dá voz aos idosos
  19. Prédio do Museu Nacional já preocupava Senado do Império
  20. Referência da história contemporânea, Constituição completa 30 anos
  21. Desemprego pauta candidatos e será desafio ao próximo presidente
  22. Em 15 anos, Estatuto do Idoso deu visibilidade ao envelhecimento
  23. 30 anos da Constituição: Principal símbolo do processo de redemocratização nacional
  24. Rebanho de bovinos e produção de leite caem, diz pesquisa do IBGE
  25. Cresce preocupação com desperdício de alimentos em todo o mundo
  26. Empresários brasileiros apostam em alimentos e bebidas saudáveis
  27. Secretário admite que pode fechar o ano sem elucidar caso Marielle
  28. Futuro presidente terá de enfrentar financiamento do SUS
  29. Apesar de aumento, menos de 40% das cidades têm política de saneamento
  30. Metade das mulheres férteis em SP usaram pílula do dia seguinte
  31. Animais criados livres no Pampa fornecem carne mais saudável
  32. Primeiro transhomem a ser operado no Brasil, João Nery prepara livro
  33. Avança o Indicador de inadimplência do consumidor; país tem 62,9 milhões de negativados
  34. Filtro colorido aumenta velocidade de leitura de crianças com dislexia
  35. Manual ensina a cuidar da saúde bucal de crianças com autismo
  36. Iniciativas do Judiciário combatem e reparam violência contra a mulher
  37. Epidemia de gripe espanhola no Brasil mata presidente, faz escolas aprovarem todos os alunos e leva à criação da caipirinha
  38. Reforma tornou ensino profissional obrigatório em 1971
  39. Museu do Ipiranga questiona os sentidos da independência
  40. Governo vai liberar recursos emergenciais para o Museu Nacional no Rio
  41. Alunos deixam ensino fundamental com desempenho pior do que entraram
  42. Câmara discute propostas polêmicas sobre orgânicos e agrotóxicos
  43. Especialistas apontam epidemia de cesarianas no Brasil
  44. Foco de instabilidade, impacto migratório é desafio em Pacaraima
  45. Há 55 anos, Senado ajudou a derrubar parlamentarismo
  46. Especialistas debatem soluções tecnológicas para ajudar o agronegócio
  47. Denúncias de feminicídio e tentativas de assassinato chegam a 10 mil
  48. Merenda escolar é vigiada no país por 80 mil “detetives”
  49. Dos 27,4 mil registros de candidaturas, 8,4 mil são de mulheres
  50. Jogadores contam histórias do preconceito enfrentado na Europa_2
  51. Subutilização da força de trabalho atinge 27,6 milhões no Brasil
  52. Ofensiva contra o lixo: país se engaja em debate sobre a coleta seletiva
  53. Seis em cada dez crianças no Brasil vivem na pobreza, diz Unicef
  54. Manifestações afros são incorporadas à cultura sem valorização dos negros
  55. Ruy Barbosa desafiou elite e fez 1a campanha eleitoral moderna
  56. Sarampo: especialista alerta sobre a importância da vacinação
  57. Casos de suicídio motivam debate sobre saúde mental nas universidades
  58. Mortes de presos aumentam 10 vezes em quase vinte anos no Rio
  59. Petróleo, combustíveis e Refis reforçam receitas da União este ano
  60. Mulheres que fizeram aborto relatam momentos de medo e desespero
  61. Supremo Tribunal Federal debate hoje a descriminalização do aborto
  62. 44% dos empresários do varejo e de serviços estão otimistas com economia para o segundo semestre
  63. Ecossistemas tropicais abrigam mais de três quartos das espécies de plantas e animais
  64. Metade dos docentes no país não recomenda a própria profissão
  65. Projeto cria regras para proteger dados pessoais
  66. Censo mostra aumento da área destinada à agricultura no país
  67. População brasileira deve chegar a 233,2 milhões em 2047, diz IBGE
  68. Construtoras acreditam em multa maior por distrato; Procons condenam
  69. Museu Paulista e Sesc Ipiranga apresentam “Papéis Efêmeros”
  70. Radiografia do ativismo indica revitalização do papel político das cidades
  71. Canecão foi referência para música brasileira e revelou grandes nomes
  72. Saúde alerta que as baixas coberturas vacinais acendem a luz vermelha
  73. Em minoria, mulheres buscam liderar negócios de inovação e tecnologia
  74. Lei de proteção de dados vai mudar cotidiano de cidadãos e empresas
  75. Estudo destaca papel central da música nos ritos de incorporação da Umbanda
  76. Cientistas vão treinar robôs para identificação automática de plantas
  77. Combate a Lampião quase entrou na Constituição de 1934
  78. Estudo aponta 30 profissões que estão surgindo com a indústria 4.0
  79. Na era Trump, imigrantes buscam espaço na política dos Estados Unidos
  80. Acompanhar tramitação de lei ainda é desafio
  81. O maravilhoso universo das plantas e a força dos nutrientes
  82. Junho deixou sementes de participação popular
  83. Número de brasileiros em áreas de risco passa de 8 milhões, diz IBGE
  84. Vida verde: benefícios do vegetarianismo e veganismo à saúde atraem cada vez mais brasileiros
  85. Uso de energia solar no campo cresce com usinas flutuantes
  86. Vinho é a bebida alcoólica preferida dos brasileiros na melhor idade, aponta pesquisa
  87. Músicos amadores criam grupos para reviver antigos sambas esquecidos
  88. Projetos buscam evitar tragédias como o desabamento de edifício em São Paulo
  89. Quilombo a 50 km de Brasília luta para manter território e identidade
  90. Lei Seca soma dados positivos após 10 anos, mas levanta questões
  91. Junho aumenta riscos de acidente com fogos e balões
  92. Dom Pedro I criou Supremo Tribunal com poderes esvaziados
  93. "Sem solução, quem matou terá carta branca", diz pai de Marielle
  94. Livro sobre intelectuais negros põe em xeque ideia de democracia racial no país
  95. Carro elétrico ainda espera incentivos para crescer no Brasil
  96. Cora Coralina é inspiração para artesãs e doceiras na Cidade de Goiás
  97. Ascensão e queda de José Bonifácio, o 'Patriarca da Independência'
  98. Brasil perdeu mais de 430 mil empregos na construção entre 2015 e 2016
  99. Desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado
  100. Poluição sonora prejudica a saúde e preocupa especialistas

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP

Contato: (11) 3043-4171