Era uma vez um repórter aéreo na noite do réveillon

Vou contar uma história que só quem conhece São Paulo consegue entender em seu sentido mais amplo. Era véspera de ano-novo, dia 31 de dezembro de 1998, e aconteceu comigo na atividade de repórter-aéreo a bordo de um helicóptero modelo Robinson R-22 de dois lugares e motor a pistão, sobrevoando as estradas desde a manhã até a noite, especialmente o Sistema Anchieta-Imigrantes

rodovia dos temporario

Em plena febre dos telefones celulares, os ouvintes ligavam sem parar para a emissora, a extinta Rádio Eldorado AM porque depois de um congestionamento monstro iniciado no dia anterior, o dia de véspera do réveillon amanhecia com Sistema Anchieta - Imigrantes travado de ponta a ponta, desde o seu início no bairro do Ipiranga, até a baixada santista com todas as rodovias litorâneas também ocupadas em sua totalidade pelos automóveis e sem uma perspectiva de melhora. Ao contrário, o tráfego só aumentava. A recomendação era para que as pessoas não iniciassem a viagem ou então, se não quisessem enfrentar os transtornos de um engarrafamento monstro, que permanecessem em São Paulo, mas quase todos insistiam em seguir.

Em 1998, a atual pista de descida da serra da Rodovia dos Imigrantes ainda não existia e isso obrigava a empresa gestora do sistema a implantar um esquema chamado Operação Descida que consistia na inversão de mão da pista de subida da Imigrantes na direção das praias e a subida do litoral para São Paulo, só pela Via Anchieta, mas isso não resolvia o problema e a demanda na direção das praias superava em muito aquilo que se tinha até então.

A frota de veículos no Estado de São Paulo, no ano de 1998, superava a casa dos quatro milhões e o trânsito parado era uma situação constante nas ruas, avenidas, estradas, enfim em todos os lugares. Por volta das 12 horas daquele 31 de dezembro o tempo estimado de descida era de cinco horas para quem estivesse de carro, fosse na Anchieta ou na Imigrantes. Trabalhando naquele dia iniciamos nosso sobrevoo às 7 da manhã e como acontece em toda véspera de ano-novo, dentro da cidade São Paulo o trânsito se mostrava mais animador, intenso, mas fluindo bem. A exceção ficava por conta da Avenida Paulista e do Centro, interditados em razão dos preparativos para a festa oficial de réveillon e a Corrida de São Silvestre.

imigrantes congestionamentos temporarioTelefones celulares havia aos montes em 1998, mas sem a internet e os aplicativos de hoje em dia. Isso reforçava a participação dos ouvintes-repórteres da Rádio Eldorado. As pessoas ligavam de todos os lugares para saber ou dividir notícias do trânsito e aproveitavam para reclamar de vários assuntos. Outros já na estrada, reclamavam daqueles que se utilizam do acostamento e fazem dele uma pista adicional ultrapassando ilegalmente os demais. Do helicóptero informávamos que os “espertinhos” encontrariam mais adiante uma viatura da Polícia Rodoviária que saberia dar uma punição correta aos desobedientes.

Os telefonemas continuavam chegando no anoitecer, nem mais para saber se o tráfego ainda estava parado porque essa era a informação constante. Quase todos queriam agora era de um certo modo desabafar, utilizando o rádio para expressar seu desalento de num momento como aquele, de confraternização entre as pessoas, não se poder estar entre aqueles que nos aguardam para brindar a virada. Outros expressavam sua ansiedade por pisar na areia da praia e na hora dos fogos, com os pés na água do mar, saudar o ano-novo dando sete pulinhos sobre as ondas de forma para espantar o mal olhado e conquistar a sorte pelo ano inteiro.

A bordo do helicóptero dava tempo de comentar entre uma informação e outra, a situação estressante dos dias que antecedem o Natal, a correria das compras, os afazeres da ceia e nada melhor que um banho de mar para espairecer tudo aquilo, mas o que se encontrava à frente era uma rodovia abarrotada de carros, apesar do preço alto do pedágio.

Também para nós e para o comandante Décio Sammartino, o sacrifício de voar tantas horas também era grande e entre uma pausa e outra para reabastecimento, uma rápida alimentação. Sanduíches e frutas que trazíamos de casa porque as lanchonetes no Campo de Marte fechavam em dias de pouco movimento para elas. A cada nova decolagem, mais duas horas de sobrevoo. No ar, os ouvintes relatavam ter ficado 4 horas e meia na estrada para um trajeto pouco menos de 80 km entre São Paulo e o Guarujá, por exemplo. Para nós seriam 18 horas de trabalho ininterrupto no céu. Os assuntos variavam, os ouvintes agora cobravam policiamento eficaz e mais investimentos na construção ou ampliação das rodovias.

Fiquei imaginando não só uma nova pista para a Imigrantes, mas também a Rodovia dos Tamoios duplicada em sua totalidade de São José dos Campos a Caraguatatuba, coisas que não existiam. Outros pediam a estrada Mogi – Bertioga bem melhor que a existente na época, situação que quase não mudou até agora.
Como já estava escuro, o céu nublado, mas sem chuva e visibilidade satisfatória, pedi para o piloto diminuir a altura na fila da praça de pedágio da Imigrantes, para que as pessoas pudessem nos ver e ter a certeza de que não estavam sozinhas na estrada, havia alguém preocupado com elas, era o repórter-aéreo e a Rádio Eldorado, cuja função era essa mesma, de prestar serviço como veículo de comunicação.

Imigrantes temporarioEntrei no ar avisando a todos que estavam no congestionamento que aquele helicóptero sobre a fila de pedágio era o nosso e pedi algum sinal da parte deles para comprovar a audiência. Consegui ver algumas piscadas intermitentes de farol e fiquei muito feliz com isso. Anunciei a façanha pelo rádio, mas em seguida um senhor telefona para a emissora e conta que está com a esposa e dois filhos pequenos no carro, todos presos há mais de duas horas para trafegar apenas 10 km. Ao final disse que tudo parecia um grande pesadelo.

Caio Camargo, apresentador no estúdio aponta que a previsão ainda é de tráfego ruim e já alerta para possibilidade de muitas pessoas terem que passar a virada do ano na estrada. Nosso âncora informava para os ouvintes que se porventura estivessem pensando em retornar sem concluir o trajeto às praias, que o fizessem, porque no dia seguinte haveria melhores condições de tráfego para uma viagem tranquila e que talvez fosse melhor assim. Mas os ouvintes insistiam em ligar para dizer que não voltariam atrás depois de tanto sacrifício, queriam ver no que aquilo iria dar. Teimosia, masoquismo, arrogância? Como explicar tal comportamento? A situação me fez imaginar o título de um filme de aventuras: “Retroceder nunca, desistir jamais”.

A situação começava a ficar dramática também para nós funcionários de uma emissora de rádio. Também tínhamos nossos eventos de réveillon ao lado dos familiares, o que fazer? A decisão unânime foi a de continuar trabalhando e informar sobre as novidades até quando desse. Do helicóptero em sobrevoo já víamos abaixo de nós os primeiros fogos de réveillon explodindo em um colorido intenso. A virada de ano se aproximava com os primeiros fogos iluminando, vez por outra, cada canto do céu embora ainda não fosse meia-noite.

O tempo se esgotava e o voo prosseguia. Passavam das 23 horas e o piloto recebe o aviso que o Campo de Marte iria encerrar suas operações, o combustível também rareava, precisávamos voltar. Retornando à base, observei do alto a cidade de São Paulo quase vazia, exceto na Avenida Paulista. Quem permaneceu chegou sem atropelos a seus encontros. Lembrei novamente das pessoas presas na estrada e ansiosas em chegar. De nossa parte, quase mortos de cansaço nem pensávamos mais em festa.

Antes de encerrar minhas transmissões fiz questão de dizer aos ouvintes que desejava a todos, um Feliz Ano-Novo repleto de pistas livres para compensar aquele martírio de ficar parado sem poder sair do carro em data tão especial. O ano de 1999, de fato, começou com muita gente saindo dos carros e se cumprimentando em plena estrada. O congestionamento naquele 1º. de janeiro terminaria só depois das duas e meia da madrugada. Ao mesmo tempo aquele ano anunciava o final de um século turbulento e o limiar de um novo milênio cheio de esperanças renovadas, assim como agora, quando mais um ano-novo se aproxima.

Certas coisas que eram usuais e modernas em 1999, hoje estão ultrapassadas como os disquetes para computador e os aparelhos CD Player nos automóveis e as frequências de rádio em ondas médias. Alguns problemas permanecem como o trânsito parado com algum repórter-aéreo tentando melhorar a situação de seus ouvintes ou telespectadores. Quero assim, como naquele réveillon na passagem de 1998 para 1999, onde aconteceu o maior congestionamento que já sobrevoei, desejar a todos do fundo do coração, um feliz ano-novo e quem sabe agora, em 2018, com mais rotas alternativas para que seu caminho siga repleto de amor e de vida saudável pela frente.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

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