Capelas que ajudam a contar a história do Grande ABC e de São Paulo

A fé cristã dos primeiros portugueses que viajaram para o novo mundo em primitivas embarcações, deixou como herança aos brasileiros a tradição de se construir capelas ao longo dos caminhos percorridos e depois fazer dali, vilas e cidades. Em cada lugar, um nome diferente de santo. A mais antiga cidade brasileira é São Vicente, fundada em 1532 por Martim Afonso de Souza.

Capela Nossa Senhora da Boa Viagem

A Revista do Historiador, publicada bimestralmente pela Academia Paulista de História (APH) trouxe em sua edição novembro/dezembro de 2017, informações interessantes sobre a chegada ao Brasil do capitão-donatário que recebeu do rei de Portugal terras a desbravar em um litoral de praias estreitas, todo coberto por mangues seguidos de uma muralha íngreme e quase intransponível, repleta de abismos, onças e outros animais selvagens à qual chamamos hoje de Serra do Mar. A chegada de Martim Afonso se deu acompanhada de um contingente de aproximadamente 400 homens trazidos em duas caravelas e um bergantim, pequeno navio tocado a remos com todos se revezando oceano afora.
No artigo assinado pelo historiador José Verdasca, titular da Academia Cristã de Letras (ACL), é contado que fazia parte desse batalhão o cavaleiro fidalgo Brás Cubas, fundador do hospital e a Misericórdia de Todos os Santos, que daria origem à vila portuária, fundada em 1546, a tão conhecida cidade de Santos. Outro fidalgo fiel ao rei de Portugal, chamado João Ramalho, subiu a tortuosa para fundar, por volta de 1550, a vila de Santo André da Borda do Campo. Um ano antes, precisamente 1549, chegava à Bahia, o padre Manuel da Nóbrega, acompanhando de outros padres, como Leonardo Nunes, que pela facilidade de andar no mato, ganhou dos indígenas o apelido “Abarebebê”, ou seja, “Padre Voador”. Também estavam na comitiva João de Aspicuelta Navarro e Diogo Jácome, entre outros. Nomeado chefe-provincial, Nóbrega ajudou o primeiro governador-geral, Mem de Sá, na fundação da primeira capital do País. O padre Manuel da Nóbrega implantou a primeira igreja e o primeiro colégio da atual cidade de Salvador, hoje capital da Bahia.
Ao final de 1552, o jesuíta acompanhou o governador-geral nas visitas às capitanias mais ao sul do Brasil e nesse encontro com Martim Afonso, foram apresentados os planos do rei de se adentrar o planalto, edificando núcleos habitacionais a partir de igrejas ou colégios jesuítas para a formação de vilas em lugares bem além da Santo André, de João Ramalho. “Definido o primeiro local, na colina entre os rios Piratininga e Anhangabaú, foi celebrada uma missa anterior à edificação do colégio, em 29 de agosto de 1553”, informa Verdasca. A 25 de janeiro do ano seguinte, nova missa seria oficiada, desta vez pelo padre Manuel de Paiva, tendo dela participando o jovem noviço José de Capela Santa LuziaAnchieta, “em uma casa de 12 passos de frente por 16 passos de fundo”, conforme descreveu o historiador em seu artigo ao contextualizar como era a igrejinha do Pátio do Colégio. A vila de Santo André da Borda do Campo, por sua vez, seria extinta em 1560 por decisão de Mem de Sá e todos os portugueses e suas famílias tiveram que se mudar para São Paulo de Piratininga, inclusive João Ramalho e sua mulher Bartira, filha mais velha do cacique Tibiriçá, chefe da tribo que veio também.
Na região da antiga vila surgiram muitos anos depois as cidades que hoje compõem a região do Grande ABC, por causa das iniciais dos santos André, Bernardo e Caetano. O ABC ainda é o caminho de passagem os viajantes que seguem do litoral para o interior ou fazem o trajeto em sentido inverso. Documentos comprovam que pouco mais de 150 anos após a extinção da vila de João Ramalho, as terras foram entregues a monges beneditinos devotos de São Bernardo de Claraval e São Caetano de Thiene, que construíram a eles em 1717, capelas para que os viajantes tivessem um local de oração. Uma dessas igrejinhas ficava onde agora está o Hipermercado Carrefour-Vergueiro, em São Bernardo do Campo. Já em São Caetano, parte da primitiva capela do século XVIII, foi aproveitada para a construção da atual igreja, a Matriz Velha do bairro Fundação. Além destas duas que em 2017 completaram 300 anos, foram edificadas a Capela de Santa Cruz, em Rio Grande da Serra (1612), Capela de Nossa Senhora do Pilar, em Ribeirão Pires (1714) e Capela da Imaculada Conceição (1733), no atual município de Diadema e que hoje não existe mais.
Fundação de São Paulo, quadro de 1913 de Antônio Parreiras.Todas essas informações estão no livreto “A Igreja no Grande ABC - 300 Anos de Evangelização”, distribuído pela Diocese de Santo André, cujo autor é o jornalista, memorialista e escritor, . O levantamento traz relatos de moradores da Vila de São Bernardo contando que pela passagem dos tropeiros com suas cargas, ou conduzindo boiadas, havia grande preocupação com a poeira levantada, com o lamaçal formado na rua e o risco de uma criança ser atropelada por um boi desgarrado. “Nessas ocasiões portas e janelas que davam diretamente para a rua eram fechadas”. O memorialista Ademir Medici, só lamenta o fato de “São Bernardo pouco falar dos tropeiros, diferentemente de outras cidades de São Paulo, Paraná e Minas Gerais”, mas comemora ao dizer que em São Bernardo uma capela histórica, a de Nossa Senhora da Boa Viagem, construída no início do século XIX, na Rua Marechal Deodoro e defronte ao Largo da Matriz de São Bernardo, segue de pé. Em julho de 1976 a imagem da padroeira teve que deixar o local e foi transladada em procissão para uma nova capelinha, ao lado do Santuário da Pauliceia, onde a prefeitura de São Bernardo do Campo construiu uma réplica exata. A mudança de deu para a abertura da Avenida 31 de Março que ocasionou a desapropriação da antiga capelinha e da própria torre da Rádio Record. Da procissão participaram Paulo Machado de Carvalho, então dono da emissora, que conduziu o andor ao lado do prefeito de São Bernardo, Geraldo Faria Rodrigues.
Hoje em dia ficou difícil se encontrar antigas capelas pelo caminho, mas algumas sobrevivem. A agradável Vila Monumento, na região do Ipiranga, é ainda repleta de casas e sobrados, por este motivo um leitor do jornal Empresas & Negócios, Odair Laporta, nos escreveu sugerindo referências à capela de Santa de Luzia, situada na rua Gaspar Fernandes.
O Portal São Paulo Antiga, criado pelo memorialista Douglas Nascimento, explica que a capela em devoção à santa protetora dos olhos é uma referência do bairro. “Diante dela, décadas atrás, havia um lugar pitoresco - ele conta - a chamada casa do bode”. É que no passado, muitos moradores criavam animais nos quintais de suas casas e os donos das cabras as levavam para ficarem prenhas de um bode que vivia em um terreno em frente à capela”.
Com o crescimento da cidade, novas e maiores paróquias foram surgindo até que no final da década de 1990, com a construção de um supermercado nas proximidades, se cogitou a demolição do pequeno templo, mas a população se mobilizou para defender e preservar a velha capela. “Foi dado início a um processo de tombamento, junto ao Patrimônio Histórico e a direção do próprio supermercado acabou bancando a reforma e a capela de Santa Luzia, voltou a ter o esplendor de outrora”, informa Douglas Nascimento. Simples e acolhedora, nela continuam sendo celebradas missas todos os dias 13 e 27 de cada mês às 19 horas, quando acontece a tradicional “benção dos olhos” pelo pároco da região.
O leitor Odair Laporta faz também referências à capela de Santa Cruz, no bairro do Cambuci, situada à Rua Espirita nº 32. Dela a única informação é que se encontra fechada há vários anos quase em abandono, preservada apenas pela vizinhança e sem nenhum tipo de celebração religiosa ou processo de tombamento. Outra capela de Santa Cruz mais conhecida, está em Santana, bairro da zona norte da capital paulista.
Em 1889, o Capitão Rabello, figura histórica do bairro por ter sido combatente na Guerra do Paraguai e parente do Frei Caneca, doou um terreno para que se construísse uma capela e um colégio-pensionato para meninas pobres. A Capela Santa Cruz foi inaugurada em 1895, no topo da Rua Voluntários da Pátria, tornando-se a primeira igreja da zona norte da cidade de São Paulo. Por muito tempo, a Paróquia e o Colégio Santana foram pontos de referência em documentos oficiais da cidade, sendo considerados desse modo marcos culturais da região.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a capela se manteve aberta por obra de duas benfeitoras: dona Ruthe Baruel e a dona Vera Ferreti, mas somente em janeiro de 1954 se obteve o Registro de Escritura (usucapião) do terreno e da edificação da Capela Santa Cruz. Deste modo se pode dar início a um processo de tombamento e reconstrução, concluído na década de 2000, fazendo da Capela de Santa Cruz uma das construções mais singelas de Santana e em toda a cidade de São Paulo.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.)

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