Os reis do futebol

O futebol surgiu no Brasil como um esporte de elite e, no ano de 1925, o Clube Atlético Paulistano, até hoje um dos mais elegantes da capital paulista, deixava de lado a disputa do Campeonato Paulista onde obteve em sua história 11 títulos e seguia para a Europa para a primeira excursão de um clube brasileiro ao velho mundo

Time do Paulistano em 1901

Foram dez partidas amistosas, sendo 9 vitórias, com goleadas sobre as seleções da França e Portugal; 30 gols a favor, 7 gols contra e apenas uma derrota. O modo de jogar da equipe brasileira chamou tanto a atenção que a imprensa europeia deu ao time do Paulistano a alcunha de “Les rois du football”.

A equipe base tinha a seguinte escalação: Nestor, Clodoaldo e Barthô, Sergio, Nondas e Abate, Filó, Mário, Friedenreich, Araken e Netinho. Em termos de artilharia, o brasileiro filho de alemão com brasileira, apelidado pelos uruguaios de "El Tigre" (após o campeonato sul – americano de 1919 - atual Copa América) marcou 11 gols durante a excursão, sendo o principal goleador da equipe, seguido por Mário, com 8 tentos anotados.

Outro atacante, Araken Patusca, marcou 4 gols. Ele pertencia ao Santos FC. e foi emprestado para reforçar o Paulistano nessa sequência de jogos. Araken, cujo pai foi um dos fundadores do alvi – negro praiano, além de futebolista, conquistou títulos no atletismo, basquete e hóquei sobre patins. Foi dele a iniciativa de publicar um livro relatando detalhes de todos os acontecimentos da viagem do Paulistano à Europa, desde o embarque no transatlântico holandês Zeelândia, até o glorioso retorno ao Brasil, com direito a desfile pelas ruas da cidade de São Paulo, em carro aberto, com efusivos aplausos da população.

Foto da equipe completa na frente do gol. Em pé: Orlando Pereira - Miguel Leite - Amphilóquio Guarisi Marques (Filó) - Sérgio Pereira - Antonio Carlos Seixas - Arthur Friedenreich (El Tigre) - Araken Patusca - Mário de Andrada e Silva - Ernesto Pujol Filho (Netinho) - Mário Cardim e Fernão de Moraes Salles. Agachados: Juan Mestres Alijostes - Caetano Caldeira - Luís Lopes de Andrade (Guarany) - Clodoaldo Caldeira - Francisco Abate - Epaminonas Motta - Maurício Villela - Bartholomeu Vicente Gugani (Barthô). À frente: Júlio Kuntz Filho e Nestor de Almeida. Estão ausentes os jogadores Durval Junqueira Machado e José Joaquim Seabra Neto, ambos do Rio de Janeiro.Araken Patusca, após a carreira esportiva, foi jornalista, cronista e comentarista de futebol. Por isso neste livro revela não apenas as suas memórias, mas também minuciosa pesquisa em jornais brasileiros e europeus, além de ter feito um “diário de bordo” durante a viagem iniciada no embarque, a 10 de fevereiro de 1925 e completado quase na metade do mês de maio do mesmo ano, após o retorno ao Brasil em um outro navio holandês, o “Flandria”.

O chefe da delegação era Orlando Pereira, um veterano campeão do Paulistano e diretor esportivo de então. O elenco que viajou era formado por Nestor e Kuntz (goleiros), Clodoaldo, Caetano, Guarani e Barthô (zagueiros), Sergio, Nondas, Abatte, Juan e Maurilio (médios), Filó, Mario, Friendeirench, Seixas e Netinho. Também seguiram com a delegação, como convidados, além de Araken Patusca, do Santos; Junqueira e Seabra; do Flamengo e Miguel Feite, do Ypiranga.

Os repórteres que acompanharam a delegação foram Américo Neto de “O Estado de São Paulo” e Mário Vespaziano de Macedo, do jornal “São Paulo Esportivo”. Para fazer o tempo passar na longa viagem, foi organizado um grupo musical para animar a turma: Friedenreich ao violão, Miguel ao violino, Guarani no piano, Netinho na caixa de fósforo e Araken no chocalho e voz.

Foram cerca de vinte dias viajando e, do porto onde desembarcaram na França até Paris, seguiram-se mais 12 horas de trem. Não havia concentração no hotel e não se ofereceu aos jogadores, nenhum prêmio por vitórias, porque o futebol ainda não estava profissionalizado. A excursão foi patrocinada pelo “Stade Français” e o dinheiro para as despesas com transporte, hospedagem e alimentação, saia por conta das rendas dos jogos e do bolso de Antônio Prado Junior, então presidente do Paulistano, homem da boa cepa paulista que vivia boa parte do ano na Europa. Na hora do divertimento, cada um pagava sua conta.

Em 8 de março os jogadores do Paulistano treinaram pela primeira vez em um campo péssimo, castigado pela neve e pela chuva e o primeiro jogo aconteceu no dia 15 de março, no Estádio de Búfalos, em Mont Rouge, Paris. Boa parte da partida aconteceu debaixo de uma fina neve, o adversário, seria a seleção oficial da França e o público para essa partida foi de aproximadamente 30 mil torcedores, estando na tribuna de honra, o presidente da Federação Francesa de Futebol, Jules Rimet e um príncipe da casa de Orleans e Bragança, filho de Dom Pedro II.

Lance do jogo Paulistano x Strasbourg.Os brasileiros começaram nervosos e logo sofreram o primeiro gol, mas aos poucos foram reagindo e acabaram por virar o jogo, aplicando uma surpreendente goleada de 7 a 2, sendo três de Friendreich e completando Mário, Netinho, Araken e Filó. Os jornais do dia seguinte seriam pródigos em elogios ao artilheiro do jogo, o craque Friedenreich e a cada novo embate, os franceses davam novas denominações aos nossos jogadores. Barthô passou a ser “Le Verdum”; Araken, “Le Danger”; Netinho, “Le Meruceleluse”; até a denominação definitiva criada pela imprensa europeia que entraria para a história: “Les rois du football”. Ao todo foram sete jogos em território francês, dois na Suíça, um deles contra a seleção nacional e um em Portugal.

A décima e última partida foi justamente em Lisboa, contra o selecionado português, no dia 26 de abril de 1925. O placar final seria 6 a 0 para o Paulistano e a conquista da Taça Brasil – Portugal, oferecida pela comunidade brasileira na Europa ao vencedor da partida. Durante a excursão houve apenas uma derrota, no dia 29 de março, na França, diante do Cette por 1 a 0. A explicação foi a de que o jogo aconteceu em um campo quadrado e não retangular, como de costume, nas partidas de futebol. “Muito curto e muito largo, tinha ainda o grande defeito de estar cheio de bossas que dificultavam ou impediam os passes rentes à terra. O gramado bastante falho, tinha apenas a vantagem de estar seco”, argumenta Araken Patuska em seu texto.

O livro “Os Reis do Futebol”, chegou às nossas mãos graças ao sociólogo José Roberto Gianello, um apaixonado pelas histórias do futebol e torcedor do São Caetano, time que já foi campeão paulista, disputou finais do brasileirão e libertadores e agora está na série D do futebol brasileiro.

Recepção aos vitoriosos jogadores no porto do Rio de Janeiro. Foi formado um cortejo que acompanhou os jogadores até a sede do Fluminense.Quando o futebol começou a se profissionalizar, o Clube Atlético Paulistano, fundado a 29 de dezembro de 1900, e fiel às raízes amadoras do esporte, foi contrário e fundou uma nova liga, a Liga dos Amadores de Futebol – LAF, que durou até 1929, ano de seu último título paulista, quando o clube resolveu fechar seu departamento de futebol. Sua derradeira apresentação foi em 15 de dezembro do mesmo ano, em seu pequeno campo, no Jardim América, hoje restaurado e utilizado exclusivamente pelos sócios e divisões menores do clube. Naquela ocasião, o Alvirubro, como se tornou conhecido, fez uma grande apresentação, batendo por 6 a 1 o Antarctica Futebol Clube, sendo 4 gols do atacante Milton, tendo ainda Friedenreich e Luizinho marcado para o mandante, e Spitaletti para o time adversário. Sua última escalação foi: Nestor, Clodô e Bartô; Romeu, Rueda e Abate; Luizinho, Joãozinho, Friedenreich, Milton e Zuanella.

Quando deixou os gramados, o Paulistano era disparado o mais glorioso time do estado. Tinha onze títulos paulistas contra sete do Corinthians e três do Palestra, além de ter contado com Arthur Friedenreich, artilheiro do Campeonato Paulista, por seis vezes. Quase todos os ex-jogadores do Paulistano estiveram presentes no primeiro ano de vida do São Paulo Futebol Clube (1930), inclusive Friedenreich e Araken Patuska, campeões pelo tricolor, em 1931.

Os jogos do Clube Atlético Paulistano
na excursão de 1925
15/03/1925 - Paris. Paulistano 7 x 2 Seleção da França.
22/03/1925 - Paris. Paulistano 3 x 1 Stade Français.
28/03/1925 - Cette. Paulistano 0 x 1 Cette.
02/04/1925 - Bordeaux. Paulistano 4 x 0 Bastidienne.
04/04/1925 - Havre. Paulistano 2 x 1 Havre/Normandie XI.
10/04/1925 - Strasbourg. Paulistano 2 x 1 Strasbourg.
11/04/1925 - Berna. Paulistano 2 x 0 Auto Tour.
13/04/1925 - Zurich. Paulistano 1 x 0 Seleção da Suíça.
19/04/1925 - Rouen. Paulistano 3 x 2 Rouen.
26/04/1925 - Lisboa. Paulistano 6 x 0 Seleção de Portugal.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.)

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