Narrações esportivas da Copa 50 são doadas ao Museu do Futebol

Após dezessete anos de pesquisas o jornalista Thiago Uberreich, da Rádio Jovem Pan, montou um acervo com as narrações de todos os jogos do Brasil na Copa do Mundo de 1950 praticamente na íntegra

Delegação Brasileira: Adãozinho, Ademir Menezes, Alfredo II, Augusto, Baltazar, Barbosa, Bauer, Bigode, Castilho, Chico, Danilo Alvim, Ely, Friaça, Jair Rosa Pinto, Juvenal, Maneca, Nena, Nílton Santos, Noronha, Rodrigues, Ruy, Zizinho, Técnico - Flávio Rodrigues Costa.

As transmissões são da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, nas vozes de Antônio Cordeiro e Jorge Curi. Este conjunto de gravações já está à disposição do público sendo por si só um marco em termos de pesquisa dos temas que dizem respeito à memória esportiva de nosso país, porque se acreditava que a íntegra dos jogos já estivesse perdida.

Após concluir o levantamento Thiago fez questão de doar uma cópia digital para o Museu do Futebol que funciona nas dependências do estádio do Pacaembu, e com isso facilitar o acesso de interessados em estudar com detalhes a história do futebol ou de analisar o desempenho daquela seleção que disputou o primeiro mundial realizado no Brasil. A Copa do Mundo de 1950 foi a quarta edição dos mundiais coordenados pela Fifa – Federação Internacional de Futebol Association, tendo sido disputada entre os dias 24 de junho e 16 de julho por treze seleções com as partidas acontecendo nas cidades de Curitiba, Porto Alegre, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Alguns dos estádios que abrigaram os jogos já estavam prontos na época, outros foram construídos para aquele acontecimento como é o caso do Maracanã que durante anos continuou sendo o maior estádio do mundo, mas que ficou pronto somente uma semana antes do início dos jogos. De lembrança para os brasileiros ficou a derrota na final diante dos uruguaios, ainda considerada uma das maiores decepções de nossa história esportiva.

Luiz Mendes, em 1950, narrou para a Rádio Globo o jogo decisivo da Copa do Mundo daquele ano, entre o Brasil e o Uruguai.Mas se compararmos o desempenho do time de 50 com a seleção que disputou o mundial de 2014, também realizado em terras brasileiras, chegaremos à conclusão que apesar da decepção, perder por 2 a 1 em um jogo decisivo é algo que pode ser encarado como um resultado normal, se comparado ao massacre que ocorreu em 2014, os 7 a 1 diante da Alemanha, na semifinal, seguido de outra goleada por 3x0 diante da Holanda na disputa pelo terceiro lugar, ou seja, o Brasil tomou 10 gols em dois jogos.

A seleção brasileira de 2014 foi uma temeridade em todos os jogos e a de 1950 fez uma campanha magistral até a partida que decidiria o título. Os jogadores derrotados na final de 1950 carregaram o estigma de covardes, azarados e outros pejorativos pelo resto da vida enquanto que os perdedores de 2014 seguem sua vida normalmente, jogando por seus clubes ou na própria seleção e quase sem nenhuma cobrança.

Os tempos são outros, claro, mas em 1950, apesar do fiasco, ao que tudo indica, havia mais brios e aqueles jogadores sentiam orgulho de vestir a camisa do Brasil, tanto que continuaram sentindo vergonha, evitando falar do vexame nas entrevistas, mesmo anos depois do lamentável fracasso. Vale ressaltar, a seleção brasileira de 1950 desenvolveu durante a competição, uma excelente campanha com o apoio total da torcida até o fatídico “maracanazo”. Foram cinco brilhantes jornadas com vitórias por goleada sobre o México (4x0), Suécia (7x1) e Espanha (6x1) fazendo do atacante Ademir Queixada o artilheiro da copa com nove gols.

“Meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo pela PUC, em 1999, foi um documentário sobre a Copa de 1950”, explica Thiago Uberreich, 39 anos, que nunca conseguiu explicar o motivo dessa obsessão em colecionar as narrações pelo rádio, imagens e todo o tipo de assunto relativo ao primeiro mundial disputado no Brasil. “Quando somos crianças, uma das melhores sensações é a de completar um álbum de figurinhas para depois mostrar aos amiguinhos que todas as páginas estão preenchidas e esta é a sensação que estou tendo agora”, avalia o jornalista após a difícil tarefa.

Ele conta que também buscou imagens, na maioria muito precárias e foram anos batendo na porta de museus, cinematecas e conversando com colecionadores particulares. “Os órgãos públicos sempre se mostraram burocráticos, querendo cobrar valores exorbitantes pelo pouco que possuem do mundial de 50 e aqui vale uma crítica à Cinemateca Brasileira que parece fazer questão de dificultar o trabalho dos pesquisadores”, desabafa o jornalista da Jovem Pan, relatando que também teve problemas para encontrar os áudios dos jogos da seleção.

Jornalista e pesquisador, Thiago Uberreich.“Na época da faculdade, a Collector's Editora, do Rio de Janeiro, vendia a íntegra da partida final entre Brasil e Uruguai, transmitida pela Rádio Nacional, mas dos outros cinco jogos existiam apenas trechos e poucos gols e com uma qualidade de som muito ruim”, informa. Em 2015 ele obteve a gravação de mais dois jogos da Seleção: 6 a 1 em cima da Espanha e 2 a 0 diante da Iugoslávia, também pela Rádio Nacional. Porém faltavam outras três partidas para completar o acervo que acabou localizando com um colecionador e agora tudo foi definitivamente concluído em termos de áudio e os seis jogos do Brasil na Copa de 1950 já podem ser ouvidos praticamente na íntegra. “Em alguns momentos as gravações perdem um pouco da qualidade, mas não se perde o fio da meada”, complementa.

O jornalista Thiago Uberreich está na Rádio Jovem Pan desde junho de 2005. Atualmente ele chega na emissora todos os dias às 5h45 para apresentar o Jornal da Manhã, um dos mais tradicionais noticiosos do rádio paulista com a presença de comentaristas como Joseval Peixoto, Marco Antônio Villa, Denise Campos de Toledo, além de uma grande equipe de repórteres, redatores, locutores e técnicos de som. Depois de deixar o estúdio, às 10 horas, Thiago segue suas atividades na redação da emissora fazendo edições, entrevistas e preparando assuntos que seguirão na programação.

Ainda assim encontrou tempo para telefonar a museus e colecionadores até localizar o que faltava. “A Seleção perdeu a Copa 50 de forma fatídica, mas não podemos desprezar aquela campanha, pois o país viveu momentos inesquecíveis e marcantes naqueles meses de junho e julho, apesar do desfecho”, completa o jornalista agradecendo ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro que sempre colaborou com ele nas pesquisas facilitando a liberação gratuita dos áudios, visto que não haveria nenhum sentido se as gravações não fossem compartilhadas também com os ouvintes, sem burocracia e nenhum custo.
Os seis jogos, cujas gravações já estão no Museu do Futebol também podem ser acessadas pelo público no site da Jovem Pan. Para acesso mais rápido basta copiar o endereço: (http://jovempan.uol.com.br/esportes/futebol/selecao-brasileira/copa-de-1950-como-voce-nunca-ouviu.html).

Ficha técnica dos jogosgol temporario

Brasil 4x0 México – 24 de junho/Maracanã
Árbitro: George Reader (Inglaterra)
Gols: Ademir 32 do 1º tempo; Jair 11, Baltazar 17, Ademir 36 do 2º.
BRASIL: Barbosa; Augusto, Juvenal; Eli, Danilo, Bigode; Maneca, Ademir, Baltazar, Jair, Friaça.
MÉXICO: Carbajal; Zetter, Montemayor; Ruiz, Uchoa, Roca; Septien, Ortiz, Casarin, Perez, Velasquez.

Brasil 2x2 Suíça – 28 de junho/Pacaembu
Árbitro: Ramón Azón (Espanha)
Gols: Alfredo II 2, Fatton 16, Baltazar 31 do 1º tempo; Fatton 43 do 2º.
BRASIL: Barbosa; Augusto, Juvenal; Bauer, Rui, Noronha; Alfredo II, Maneca, Baltazar, Ademir, Friaça.
SUÍÇA: Stuber; Neury, Bocquet; Lusenti, Egginemann, Quinche; Tamini, Bickel, Friedlander, Bader, Fatton.

Brasil 2x0 Iugoslávia – 01 de julho/Maracanã
Local: Maracanã (Rio de Janeiro)
Árbitro: Mervyn Griffiths (País de Gales)
Gols: Ademir 3 do 1º tempo; Zizinho 24 do 2º.
BRASIL: Barbosa; Augusto, Juvenal; Bauer, Danilo, Bigode; Maneca, Zizinho, Ademir, Jair, Chico.
IUGOSLÁVIA: Mrkusic; Horvath, Stankovic; Tchaikowsky I, Jovanovic, Djajic; Vukas, Mitic, Tomasevic, Bobek, Tchaikowsky II.

Brasil 7x1 Suécia – 9 de julho/Maracanã
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
Gols: Ademir 6 e 36, Chico 39 do 1º tempo; Ademir 6 e 12, Andersson (pen.) 31, Maneca 40, Chico 43 do 2º.
BRASIL: Barbosa; Augusto, Juvenal; Bauer, Danilo, Bigode; Maneca, Zizinho, Ademir, Jair, Chico.
SUÉCIA: Svensson; Samuelsson, Erik Nilsson; Andersson, Nordahl, Gaerd; Sundqvist, Palmer, Jepsson, Skoglund, Stellan Nilsson.
Brasil 6x1 Espanha – 13 de julho/Maracanã
Local: Maracanã (Rio de Janeiro)
Árbitro: Reg Leafe (Inglaterra)
Gols: Ademir 13, Jair 18, Chico 31 do 1º tempo; Chico 11, Ademir 12, Zizinho 22, Igoa 26 do 2º.
BRASIL: Barbosa; Augusto, Juvenal; Bauer, Danilo, Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico.
ESPANHA: Ramallets; Alonso, Gonzalvo II; Gonzalvo III, Parra, Puchades; Basora, Igoa, Zarra, Panizo, Gainza.

Brasil 1x2 Uruguai – 16 de julho/Maracanã
Local: Maracanã (Rio de Janeiro)
Árbitro: George Reader (Inglaterra)
Gol: Friaça 2, Schiaffino 26, Ghiggia 36 do 2º tempo.
BRASIL: Barbosa; Augusto, Juvenal; Bauer, Danilo, Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico.
URUGUAI: Maspoli; Matias Gonzalez, Tejera; Gambetta, Obdulio Varela, Andrade; Ghiggia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino, Moran.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo." data-mce-href="mailto:O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.)

Mais Lidas