ISSN: 2595-8410 Contato: (11) 3043-4171

Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Os 60 anos da Bossa Nova e as reflexões sobre o destino da Música Popular Brasileira

Até o final da década de 1950, o violão não era bem aceito entre as famílias. Quem tocasse esse instrumento dentro de casa era chamado à atenção pelos mais velhos e ser considerado boêmio ou até mesmo malandro

5bbb82a5fbbcc9 temporario

Homem que gostasse de música tinha também que mostrar masculinidade e deveria ficar longe também do piano, um instrumento para mulheres. O próprio Tom Jobim chegou a dizer ter compartilhado desse posicionamento em certa fase de sua vida deixando por preconceito o piano de lado para só sua irmã dedicar-se a ele no aconchego familiar.

Por conta desses valores, quem fosse homem e de boa cepa só deveria dar vazão ao talento musical através do acordeom. Certa vez em uma entrevista Edu Lobo disse que a harmônica, também chamada popularmente de sanfona, é um instrumento difícil de tocar e perigoso. “Se o cara errar um acorde todos percebem e não tem jeito de disfarçar”, explicou o premiado compositor ao relatar que, na adolescência, estudou acordeom durante sete anos.

Dessas explicações se percebe a importância da Bossa Nova, como divisor de águas na música brasileira. Surgida com o lançamento em disco da canção “Chega de Saudade”, na voz de João Gilberto, em julho de 1958, o novo ritmo permitiu a entrada do violão nas casas de família passando a ser aceito pelos bons modos da nova harmonia, menos incisiva, mais macia e melodiosa. A música passou ganhou sobriedade ao violão com João Gilberto que cantava baixinho, quase sussurrando, de modo até sensual para assim modificar de vez a maneira de se interpretar uma canção.

Antes o bom cantor tinha que ter voz forte e a Bossa Nova modificou essa estética ajudando até mesmo o piano (por conta de Tom Jobim) a obter a alforria e ser tocado por qualquer pessoa independente do sexo, raça ou cor. Não fosse o esse novo estilo talvez até mesmo Roberto Carlos não seria o sucesso que foi e ainda é. Exatamente um ano depois do lançamento de “Chega de Saudade”, Roberto entraria pela primeira vez, em julho de 1959, num estúdio de gravação para lançar seu primeiro disco, o 78 rpm com as canções “Fora do Tom”, de Carlos Imperial, e “João e Maria”, do próprio Roberto em parceria com Imperial.

18710 temporario

Sylvinha Telles se apresenta em São Paulo, março de 1963. Sylvinha foi a primeira cantora profissional a integrar o movimento da bossa nova. Foto: Conteúdo Estadão/AE

Esta última acabou ficando com o Lado A do disco lançado pela Polydor. Ainda não seria este o primeiro sucesso do “Rei”, mas o interesse de uma gravadora por sua voz parecida com a de João Gilberto demonstra que a Bossa Nova modificava a compreensão do sentido do que era música de qualidade.

Bossa Nova, escrita com letras maiúsculas, diz respeito a um movimento surgido entre jovens músicos da zona sul carioca que tinham nas figuras de Tom Jobim, Newton Mendonça, Carlos Lyra, Ronaldo Boscoli e Nara Leão, seus principais expoentes. Já a bossanova, em letras minúsculas, define a batida diferenciada de João Gilberto ao violão no ritmo de samba.

 

 

 

 

 

 

19019 temporario

João Gilberto em 1959 Foto: Iconographia

Roberto Carlos começou influenciado pela bossanova, mas a chegada dos Beatles levou as gravadoras a introduzir mais um novo ritmo que na definição tupiniquim levou o nome de 'iê,iê,iê', para mais tarde ser definido como Jovem Guarda, programa de televisão que passou a ser apresentado por ele. Com seu balanço mais agradável aos adolescentes abre-se uma caminho paralelo ao da Bossa Nova mais intelectualizada. Quase ao mesmo tempo surge a Tropicália, de Gilberto Gil e Caetano Veloso com suas canções de protesto bem aos gosto dos universitários da época.

Toda essa miscelânia cultural motiva uma contestação contrária à presença das guitarras elétricas na música brasileira. Em 17 julho de 1967, com o ambiente político também efervescente mas ainda permitindo manifestações (o AI-5 só viria em 1968), se faz uma passeata contra as guitarras em oposição ao que se considerava um subproduto da invasão cultural norte-americana.

Munidos de carro de som, altofalantes, faixas e cartazes, artistas sairam em uma quarta-feira, por volta das cinco da tarde, do Largo São Francisco, palco de históricas manifestações estudantis em São Paulo, na direção do Teatro Paramount, na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, tendo Geraldo Vandré e Elis Regina à frente acompanhados por Gilberto Gil, Edu Lobo, Jair Rodrigues e outros cantores, além de uma multidão de manifestantes.

Chico Buarque, Caetano Veloso e Nara Leão não participaram. Logo depois, Gilberto Gil e Edu Lobo se disseram arrependidos e a própria Elis se redimiu ao aceitar o acompanhamento de guitarras elétricas ao gravar “Nas curvas da estrada de Santos”, de Roberto e Erasmo. A justificativa de defender um som mais acústico para a música brasileira, mostrou-se autoritária. Daquele dia em diante ficou claro que nem Bossa Nova, Jovem Guarda ou Tropicália sobreviveriam.

18807 temporario

Baden Powell e Vinícius de Moraes durante gravação, em janeiro de 1963. Foto: Folhapress

Da “Geleia Geral” cantada por Gilberto Gil, surgiu a MPB, sigla de uma abreviatura que buscou definir a Música Popular Brasileira de qualidade. Artistas considerados mais ao gosto do espírito estudantil fizeram parte deste seguimento. Roberto Carlos por sua vez, continuou seguindo um caminho diferenciado e mais maduro, passou a ser um cantor romântico de voz suave fazendo sucesso. Desde então, Bossa Nova e Jovem Guarda viraram sinônimo de nostalgia.
Agora, 60 anos depois e quase ao final da segunda década do século XXI com o Brasil passando por outra profunda crise econômica, política e de valores sociais, a conclusão que se chega é que os movimentos musicais do século XX quase não deixaram legado às gerações que vieram depois. O que se faz hoje na música brasileira pouco tem a ver com a Bossa Nova, Tropicália ou Jovem Guarda.
O jovem brasileiro atual até mesmo desconhece o significado da sigla MPB. Nosso país segue vivendo um turbilhão e a música brasileira, como expressão cultural, se mistura a esse redemoinho de incertezas.

Mais artigos...

  1. Dia do Mundial do Rock virou festa dos “coroas”
  2. Reflexões sobre a Revolução Constitucionalista de 1932
  3. Alegria da garotada, o futebol de botão é agora esporte sério
  4. Os 80 anos do “novo” Viaduto do Chá
  5. Capelas que ajudam a contar a história do Grande ABC e de São Paulo
  6. Em São Paulo a tradição das capelas segue mantida
  7. O Dia Mundial do Rádio e as confusões do carnaval
  8. Dançarinas de aluguel que atuavam nos taxi-dancings de São Paulo
  9. Era uma vez um repórter aéreo na noite do réveillon
  10. Lendas e Verdades sobre o Natal
  11. Alguém ainda duvida que Elvis não morreu?
  12. Greve Geral há cem anos traz reflexões sobre o momento atual
  13. Jânio Quadros volta a ser assunto na cidade após entrega dos “Arcos”
  14. Machado de Assis e os 178 anos de um texto que não envelhece
  15. Os 50 anos do disco mais emblemático dos Beatles
  16. Conheça os fatos que marcaram a fatídica noite de 23 de maio de 1932
  17. Os 80 anos da Rádio Bandeirantes e a democracia no Brasil
  18. São Paulo com suas ruas e bairros de nomes polêmicos
  19. São Paulo de Todos os Tempos e o sentido de respeito à cidade
  20. O fim da Rádio Estadão é só um pedaço da crise instalada na mídia
  21. Há 150 anos o trem chegava a São Paulo
  22. Bravo Maestro, ou Maestro Bravo?
  23. Belém ou Belenzinho? Eis a questão
  24. “Novos Cangaceiros” agem no interior do Nordeste como nos tempos de Virgulino Ferreira, o “Lampião”
  25. Memórias de um repórter aéreo no aniversário da cidade
  26. A estrela sobe
  27. Circulando de carro por uma São Paulo que não volta mais
  28. Um passeio na história paulistana para quem visita a Liberdade
  29. Os 50 anos do álbum Revolver e a curiosa história de Eleanor Rigby
  30. Na festa da Rádio Nacional preocupação e saudades
  31. Paralimpíadas prometem marcar história no Brasil
  32. Morre o policial criador do Museu do Crime
  33. A curiosa passagem de um cronista inglês pelo Brasil de 1927
  34. Postura do povo paulista em 32 é exemplo para nossos dias
  35. Narrações esportivas da Copa 50 são doadas ao Museu do Futebol
  36. Vamos falar da Mooca?
  37. Os reis do futebol
  38. Esculápios, Boticas e Misericórdias na Piratininga D’Outrora
  39. A magia da vida nas canções de Gal Costa
  40. Conheça a verdadeira história da Revolução Constitucionalista
  41. A Era do Rádio
  42. São Paulo mantém mas não preserva a lenda do DC-3
  43. Os 20 anos do Windows 95 e o museu brasileiro do computador
  44. 50 anos depois a Jovem Guarda já é vista com melhores olhos
  45. Estados Unidos reabrem embaixada com festa e desconfiança
  46. Constellation: uma viagem aérea e musical pelo Rio de Janeiro antigo
  47. Há 60 anos surgia a fábrica de sonhos de Walt Disney
  48. Da maioridade de Dom Pedro II aos dias atuais, o Brasil sempre foi um país de “pedaladas”
  49. Marisa Monte reconhecida entre as melhores da MPB
  50. Estatuto da Pessoa com Deficiência: agora começa luta para qualificar a mão de obra
  51. A verdadeira história da Revolução Constitucionalista
  52. Marreco jogou melhor no tricolor do que Pato e Ganso
  53. Maria Bethânia: quinta melhor voz da MPB em todos os tempos
  54. Você já foi chamado de “coxinha”?
  55. Descubra o que São Paulo perdeu visitando acervo digital
  56. Descubra o que São Paulo perdeu visitando acervo digital (2)
  57. Livro e exposição resgatam chegada do zepelim ao Brasil
  58. Arqueólogas descobrem no Rio caminho secreto de Dom Pedro I
  59. Mostra desvenda a figura do Morgado de Mateus
  60. Em novo livro Gilles Lapouge declara seu amor ao Brasil

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP

Contato: (11) 3043-4171