Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
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Conheça os fatos que marcaram a fatídica noite de 23 de maio de 1932

Costumeiramente as pessoas me perguntam qual o significado da data que dá nome a uma das principais avenidas de São Paulo, que é justamente aquela que leva ao obelisco onde repousam os heróis de 1932. Pois bem, vamos contar o que aconteceu naquele ano no dia 23 de maio

Uma rara foto em que aparecem Martins, Miragaia, Drausio e Camargo com os braços entrelaçados a frente da multidão naquele dia 23 de maio, pouco antes de o grupo ser atacado a bala.

Os moradores do prédio número 70 (mais tarde 298 da Rua Barão de Itapetininga), no centro da capital paulista, já estavam na cama quando foram despertados pela gritaria. Os que levantaram e espiaram pelas cortinas do quarto puderam ver uma multidão compacta se aproximando, formada na maioria por jovens. Certamente eram estudantes realizando mais uma de tantas manifestações pela democracia, mas desta vez, vários deles portavam correntes ou barras de ferro, o alvoroço foi aumentando e o número de pessoas crescendo, tendo início uma investida na direção a este prédio de 6 andares, situado bem na esquina com a Praça da República.

Escadas de madeira foram debruçadas sobre a fachada do imóvel. A intenção era chegar à sobreloja onde funcionava a sede da Legião Revolucionária, fundada em 1930, para dar apoio ao regime implantado por Getúlio Vargas, que prometera um governo provisório, mas que continuava a comandar o país por meio de decretos e com o auxílio de interventores estaduais escolhidos por ele. Desde o início daquele ano de 1932, os estudantes já haviam promovido outras passeatas pedindo a implantação de uma Assembleia Nacional Constituinte, mas nada surtia efeito.

Um flagrante do enterro de um dos mártires de 23 de maio de 1932.A Legião Revolucionária, formada por tenentes que apoiavam Getúlio foi rebatizada de Partido Popular Paulista - PPP. Os estudantes não concordavam, queriam invadir e depredar os escritórios daquela agremiação que ajudava promover a repressão e servia de base para o tenentismo no Estado. Como passava das 11 da noite, as luzes da sede da Legião estavam apagadas. Imaginou-se, portanto, que não haveria ninguém. Porém, tão logo os primeiros estudantes iniciaram a abordagem ouviu-se uma saraivada de tiros mesmo com as salas escuras.

Havia lá dentro militantes armados que para dissuadir os invasores, fizeram os primeiros disparos para o alto surpreendendo os visitantes indesejáveis que foram obrigados a saltar das escadas para o chão em busca de abrigo. A massa, entretanto, não se dissipou, ao contrário, com a chegada de mais populares vindos dos comícios em prol da constitucionalização, realizados pela cidade, naquela segunda-feira, 23 de maio de 1932, a multidão foi se aglomerando nas ruas adjacentes à Praça da República e por volta da meia-noite, novos manifestantes chegaram bem guarnecidos.

Um grupo arrombou três lojas próximas que vendiam armas e munições e trocaram as correntes por revólveres, carabinas e fuzis. De posse desse arsenal, decidiram fazer nova ofensiva. Um grupo deu cobertura, atirando contra sobreloja, enquanto outro se esgueirou até as escadas apoiadas sobre a fachada. Lá em cima sob um chuveiro de balas, os sitiados improvisaram uma trincheira, empilhando armários e outros móveis rente às janelas.

Mesmo em flagrante inferioridade numérica, os militares favoráveis ao governo central, tinham a seu favor a visão privilegiada, devido à altura na qual se encontravam. Um dos primeiros a tentar alcançar o topo, foi alvo fácil para um balaço e o homem ferido, soltou um grito de dor e despencou na calçada. Uma bolsa de sangue logo se formou em volta de seu corpo imóvel. Os companheiros que o seguiam também foram atingidos mas conseguiram se afastar cambaleantes, para fora da zona de perigo, seguindo-se cerrado tiroteio.

Geraldo 5 temaporarioAs 20 famílias que moravam nos apartamentos situados a partir do terceiro pavimento daquele prédio, entraram em pânico. Projéteis adentravam a sala, o quarto, a copa, quebrando lustres, abrindo buracos nas paredes, estraçalhando espelhos, destruindo cristaleiras. Homens, mulheres e crianças disputavam um lugar no elevador ou se atropelavam pelas escadarias internas todos em direção ao sexto andar onde funcionava a administração do condomínio. De lá, ligaram para o plantão da Força Pública que prometeu mandar um pelotão urgente. Contudo, três horas depois, o tiroteio continuava e a polícia não havia aparecido.

Às quatro da madrugada ouviu-se um matraquear ensurdecedor de metralhadoras. Eram forças do exército que, na ausência da polícia, finalmente chegavam para impedir a continuação do embate. O comandante da operação, ordenou o imediato cessar-fogo. Caso contrário, gritou, seus homens seriam forçados a impor a ordem nem que para tanto precisassem disparar contra um, ou outro lado, sem distinção.

Enquanto os soldados formavam um cordão de isolamento e punham uma fileira de metralhadoras voltadas para a praça, um oficial se dirigiu ao portão do edifício. Nem precisou de esforço para arrombá-lo. Bastou um empurrão, a fechadura já estava arrebentada pelas balas. Intimados a se render os ocupantes da sede da Legião receberam garantias de que seriam conduzidos para um quartel, longe das vistas dos que ameaçavam linchá-los. Debaixo de vaias, um a um, os legionários atravessaram a ala dupla de soldados e foram introduzidos em três carros estacionados junto ao meio-fio. Nenhum deles exibia a ferimentos graves.

Geraldo temaporarioNesse momento, não muito distante dali, os sinos do relógio do Mosteiro de São Bento anunciavam as badaladas das cinco horas da manhã. Em poucos minutos o dia iluminaria o cenário do conflito, permitindo que os paulistas, a caminho do trabalho, tivessem uma melhor dimensão do episódio ocorrido durante a madrugada. Muitos feridos ainda podiam ser vistos caídos pelo chão ensanguentados. Os padioleiros da Santa Casa continuariam a trabalhar com o sol a pino. Os baleados somavam algumas dezenas. O número de vítimas, incluindo os que morreriam dias depois em leitos pelos hospitais da cidade chegaria a 13, mas a maioria dos mortos foi esquecida pela historiografia e condenados ao anonimato eterno.

O noticiário da época e os relatos posteriores destacaram a morte de três indivíduos: o auxiliar de cartório, Euclides Miragaia; o comerciário Antônio Américo Camargo Andrade e o fazendeiro Mário Martins de Almeida, recolhidos já sem vida e conduzidos ao necrotério. Um quarto, o ajudante de farmácia, Dráusio Marcondes de Souza, de apenas 14 anos, morreria menos de uma semana depois devido às complicações dos ferimentos a bala.

As iniciais dos seus nomes de guerra: Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo forneceriam a sigla e o símbolo da cruzada paulista contra Getúlio Vargas: o MMDC.

Assim começaria a epopeia que marcaria a trajetória de São Paulo para sempre.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

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