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Não gostamos de livros

O líder absolutista chegou a uma conclusão. Seu período no poder era tão importante que a história deveria começar naquele momento.

Nada que lembrasse o passado deveria ser guardado. O presente era tudo. O prestígio de seu governo, do país, o crescimento econômico, o esplendor das artes atestavam que ele estava certo. Como de costume o grupo dos que o circundavam aplaudiam. Uns por puro puxa-saquismo, outros por medo da ira do líder contra os que se dignavam a não acha-lo o mais importante homem da terra.

Afinal a China era considerada o império do meio, e à sua volta apenas povos bárbaros, iletrados, incultos, viviam. Era preciso um ato heroico, de grandeza para dar início na nova era. O imperador, Qin Shi Huang, mandou queimar os livros dos letrados. Para obter dos seus súbditos uma obediência incondicional, este imperador ordenou a destruição das obras dos confucionistas, acusados de subversão. Ele não teve dúvidas, mandou tocar fogo em tudo que pudesse relembrar épocas passadas.

A memória nacional passaria a ser registrada do seu reinado para frente. O primeiro imperador da dinastia Chin, do século 3 a.C. fez uma imensa fogueira com os papéis de arroz. Aqueles que foram pegos escondendo livros pagaram com a vida. Alguns devotados decoraram textos ou conseguiram esconder alguns exemplares, e assim o pensamento de Confúcio, Lao-tsu e de outros filósofos sobreviveram. E o ditador de manto amarelo, finalmente, teve o seu lugar na história assegurado.

Na mesma época, uma biblioteca pretendia acumular toda a sabedoria do mundo conhecido. Em frente a uma feira onde um mágico tinha uma esfera de metal capaz de girar sozinha, apenas expelindo vapor, se apresentava e um templo gigantesco só permitia que os deuses fossem vistos se colocadas moedas nas engrenagens, ali nasceu uma biblioteca. O conquistador macedônio Alexandre, deu o seu aval para a instituição. Colaborou incentivando a vinda de pensadores gregos, mesopotâmicos, egípcios, persas, hindus para que juntassem os seus escritos na biblioteca de Alexandria, bem na foz do Rio Nilo.

A ação proporcionava o encontro da cultura ocidental grega com o mundo oriental, traduzida em milhares de pergaminhos estocados. Nascia o helenismo. Tudo se perdeu 200 anos depois em um grande incêndio. O que restou dela sobreviveu por 10 séculos até que um potentado invasor atinou que os livros eram perigosos, relatavam experiências proibidas pela religião islâmica. O melhor e mais seguro era pôr fogo em tudo novamente.

Por pouco não se perderam os textos de Platão, Aristóteles e outros pensadores que tiveram suas obras traduzidas para o árabe. Mais uma vez a areia escapou pelos dedos do tirano. Quanto eles mais apertam, mais ela escorre. Hoje as bibliotecas não correm mais o risco de serem queimadas. Museus, sim. Graças a era digital as grandes bibliotecas mundiais cabem na palma da mão de um ser humano que tem acesso à internet.

Em apenas dois segundos ela contém toda a informação acumulada por séculos em Alexandria. Em 20 minutos todo o acervo da biblioteca do Congresso, a maior do mundo. Em dois dias a quantidade de dados que carregam todo tipo de informação equivalem a tudo que o ser humano produziu desde o início da civilização até os dias atuais. Não há mais necessidade de acumular todo o conhecimento em um só livro, prédio, cidade ou país.

Graças à digitalização tudo circula pelo mundo e se acumula em bilhões de arquivos nos mais diversos equipamentos, do grande computador ao celular. Os tiranos, ditadores, absolutistas não sabem mais para onde mandar os seus capangas para pôr fogo nos livros. Nada mais se assemelha à sanha nazista contra os livros, quando invadiam bibliotecas e casas. As piras, uma delas na avenida Unter den Linden, em Berlim, foi comemorada com festa e desfile dos devotos de Hitler.

Nada disso impediu que asobras de Thomas Mann, Sigmund Freud, Karl Marx e muitos outros se perpetuassem.

(*) - É editor-chefe e âncora do Jornal da Record em multiplataforma.

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