J. B. Oliveira

Os pronomes possessivos. E o comportamento dos filhos

                           

                                                                                                                          J. B. Oliveira

 

Pode parecer estranho, esdrúxulo até, mas o homem sabe, ao voltar para casa, como foi o comportamento do filho naquele dia, a partir do pronome possessivo usado pela mulher ao se referir ao pimpolho!

Se ela disser, sorridente: “Hoje o MEU filho...”, ele sabe que o garoto recebeu algo aí como diploma de honra ao mérito, medalha de distinção, elogio escrito no boletim (se é que isso ainda existe) ou coisas semelhantes.

Se, porém, pensativa, ela falar: “Meu bem, o NOSSO filho...”, ele que se prepare para contratar aulas de reforço, repor uma cadeira quebrada na escola ou para comparecer a uma reunião com a diretora.

Agora, se ela vociferar: “Hoje, o SEU filho...”, aí a coisa é séria! O que o moleque aprontou é tão grave, que ela já “tirou o time de campo”! Eximiu-se até de sua indispensável participação na geração da criança, lembrando o refrão do samba “Nega maluca”, de 1950, de autoria de Fernando Lobo e Evaldo Rui: “Toma que o filho é teu...”!

A razão desse inusitado comportamento comunicacional – comum a praticamente TODAS as mulheres – é que elas fazem tudo transitar pelo hemisfério direito do cérebro, o da EMOÇÃO, que, como é sabido, não se curva aos critérios da fria lógica racional. É uma pura explosão de sentimentos exacerbados, não controlados e que valem só para aquele momento, às vezes bem curto.

É, por exemplo, o que as leva a dizer “Hoje estou MORTA de cansaço! ”, ou “Eu tomei TODA aquela chuva! ”, ou ainda: “NUNCA mais quero ver a sua cara! Para mim, você MORREU! ”... É importante ressaltar que essas acaloradas expressões valem só para o momento do fato, para o flagrante. Depois, não mais. Ou seja: têm “prazo de validade”...

Se aquele mesmo garoto que ela implicitamente disse ser filho só do pai (“ o SEU filho...”), sofrer o mais insignificante ferimento, uma leve febre ou um mal-estar qualquer, pronto! Volta a ser o filhinho do coração, e ela se torna só carinhos e cuidados para com ele. Afinal, como poetizou Coelho Neto: “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração... Ser mãe é andar chorando num sorriso... Ser mãe é padecer num paraíso”!

Para John Gray (“Homens são de Marte Mulheres são de Vênus”), a solidariedade é um sentimento natural da mulher, não obrigatoriamente partilhado pelo homem, mais individualista. Por isso, o pai dirá ao filho, ao dar-lhe um remédio: “Toma isso aí, moleque, senão...”

Enquanto que a mãe, com voz meiga e amiga, dirá: “Filhinho, VAMOS tomar esse remedinho? ” É claro que ela não vai tomar nada daquele remédio, mas a expressão de solidariedade empregada por ela facilita a aceitação do medicamento, ainda que amargo.

Transpondo para o mundo corporativo, constata-se que a vinda da mulher para a esfera da atividade laboral humanizou muito as relações de trabalho. Até mesmo na evolução do designativo dessa área: Relações Industriais; Departamento do Pessoal; Recursos Humanos; Gestão de Pessoas...

Isso explica, também, porque a mulher vem ocupando cada vez mais cargos de destaque e importância em todas os setores da atuação humana. No Brasil de hoje, os três grandes pilares da Justiça estão ocupados por mulheres: Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal; Raquel Dodge na Procuradoria-Geral da República e Grace Mendonça na Advocacia-Geral da União!

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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