J. B. Oliveira

“O pior cego é o que não quer ver”

                                                                                                                                                     J. B. Oliveira

Esta é mais uma entre tantas outras expressões que se vai repetindo vida afora sem se ater ao seu sentido, à sua origem ou sequer ao seu significado.

 

Cada vez que algo está mais do que evidente para todo mundo e alguém se recusa a ver, mesmo o fato estando “na cara”, lá vem o chavão “O pior cego é o que não quer ver”... 

Isso, aliás, pode se aplicar nas telenovelas em relação a todo “mocinho” ou “mocinha” da trama urdida pelo novelista. As mazelas e perfídias praticadas pelos vilões são tão meridianamente claras que só os “bonzinhos bobocas e babacas” não veem! Às vezes – melhor dizendo, quase sempre – a coisa é tão escrachada que até ofende a inteligência dos menos sábios dos espectadores de novelas (que, a bem da verdade, já não são tão sábios assim...).

 

Mas, no caso presente, de onde vem e a que vem essa conhecida e curiosa frase?

A bem da verdade, o que se imagina é que todo cego quer ver. Afinal, segundo informa o Instituto Thea de Optometria Comportamental Internacional, “o sistema visual aporta 80% da informação sensorial. O processamento da informação visual é um aspecto-chave para o entendimento do mundo”. Isso significa que, sem a visão, perde-se enorme parte da capacidade de percepção do entorno do mundo! O mesmo instituto vai além, afirmando: “A percepção visual serve para identificar, classificar, organizar, armazenar e lembrar a informação apresentada visualmente”.

 

Pois bem, a nossa frase tem por base uma história real. (Aqui não posso deixar de comentar a repetidíssima e horrorosíssima expressão, vista em muitos livros e filmes, “este livro – ou filme – é baseado em fatos reais”!

Basta uma reflexão rudimentar para perceber a aberração: se é fato, é obrigatoriamente real, porque se não fosse real, não seria fato, e sim boato...).

Retomando nossa narrativa: o fato ocorreu em meados do século XVII, mais precisamente no ano de 1647, na cidade de Nimes, na França. Ali, o doutor Vincent de Paul D’Argent realizou a primeira cirurgia de transplante de córnea de que se tem notícia, em um aldeão de nome Angel. A operação foi um sucesso. Só que desagradou a quem mais deveria ter agradado: o paciente! Angel se sentiu horrorizado com o que viu. Disse que o mundo que imaginava era muito melhor. Absolutamente inconformado, pediu que lhe arrancassem os olhos, porque não queria ver nada daquilo. O inusitado caso de tão estranha exigência acabou indo parar no tribunal em Paris e no Vaticano – uma vez que a igreja, naquela época, tinha grande poder decisório. O pedido de Angel, porém, teve ganho de causa, seus olhos foram retirados e ele passou para a história como “o cego que não queria ver”!

 

No presente, pelo menos em nosso país, muitos cegos não veem não porque não eles queiram, mas porque outras pessoas não querem – ou não permitem – que eles vejam!

Isso ocorre quando a família de uma pessoa que faleceu não concorda com a doação de seus órgãos, entre eles a córnea! Se esse impedimento não ocorresse, e pessoas solidárias e humanitárias dessem autorização para que se procedesse à cessão dos olhos dos que se foram em benefício dos que aqui permanecem, certamente haveria muito mais ex-cegos passando a desfrutar visualmente das belezas deste mundo multiforme e multicolorido ao seu redor!

Um exemplar clube de serviços, o Lions, vem desenvolvendo intensa atividade nesse sentido, procurando motivar pessoas a colaborar, através do Banco de Olhos, com seus irmãos deficientes visuais.

 

Não se pense, porém, que a cegueira física impeça a atividade dos que querem agir. Há, uma instituição notável chamada ADEVA – Associação de Deficientes Visuais e Amigos, que fica na rua São Samuel 174, na Vila Mariana. Seu ativo presidente Markiano Charan Filho, conta que, por ter nascido de 7 meses e ter precisado ficar na incubadora, o excesso de oxigênio a que se viu exposto ocasionou-lhe a cegueira. “Mas minha infância”, conta ele, “foi como a de outras crianças, e fiz muita arte”.

Há muitos anos, ele foi meu aluno de Oratória e, no encerramento do curso, proferiu um maravilhoso discurso intitulado “A ausência na presença”, em que dizia que a pior ausência dos pais em relação aos filhos não é a falta de presença física, mas a da atenção, do interesse, mesmo estando perto!

Markiano, que é o orgulhoso pai da Júlia, estudou na Escola Técnica Federal, tendo sido o primeiro aluno deficiente visual. É formado em Letras (língua e literatura inglesa) pela PUC São Paulo, e um exemplo de dedicação ao trabalho e ao desenvolvimento sociocultural! É um cego que vê, muito além dos horizontes físicos da visão!

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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