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J. B. Oliveira

Pasmem: o ser humano está deixando de existir!

 

 

                                                                                                                                                           * J. B. Oliveira

 

Por cerca de 700 anos – dos idos do século IX até o início do Renascimento, no século XVI – prevaleceu, no mundo ocidental, o princípio filosófico inspirado nos ideais dos filósofos gregos Aristóteles e Platão, com um viés de fundamentação cristã: a Escolástica. Para além de ser uma corrente filosófica, a Escolástica pode ser considerada um método de pensamento crítico, que influenciou as áreas de conhecimento das universidades medievais.

Nesse método de aprendizagem, as diversas disciplinas curriculares estavam assim distribuídas:

 

Trivium: Gramática, Retórica e Lógica; e

 

Quadrivium: Aritmética, Geometria, Astronomia e Música.

 

O mais destacado representante dessa escola foi Tomás de Aquino (1225 – 1274). Conhecido como “Príncipe da Escolástica”, perseguia o objetivo de racionalizar o pensamento cristão, assim buscando a aproximação entre a fé e a razão, apoiando-se principalmente na filosofia aristotélica. No final do século XV, portanto seis séculos decorridos desde seu início, essa filosofia já apresentava desgastes, ensejando até eventuais – embora veladas – controvérsias. Foi então que se tornou clássica a expressão latina “Magister dixit”, que se traduz por “o mestre disse”, como forma de pôr fim a questionamentos, impondo o pensamento da cátedra.

 

Então, já no século XVI, mais precisamente em 1637, o filósofo, físico e matemático francês René Descartes, também conhecido pelo nome latino Renatus Cartesius (1596, Descartes, França – 1650, Estocolmo, Suécia), pôs abaixo a carcomida expressão e o velho princípio filosófico então vigente! Em sua obra “Discurso do Método”, lança a frase “je pense, doc je suis”, mais conhecida em sua versão latina “cogito, ergo sum”, traduzida por “penso, logo existo”, que rapidamente se alastrou mundo afora.

 

Conclusão: para o pai da filosofia moderna, a existência do ser humano é consequência direta de sua capacidade de pensar, de ter pensamentos. Pela definição da Wikipédia:

 

Pensamento e pensar são, respectivamente, uma forma de processo mental ou faculdade do sistema mental. Pensar permite aos seres modelarem sua percepção do mundo ao redor de si, e com isso lidar com ele de forma efetiva e de acordo com suas metas, planos e desejos. Palavras que se referem a conceitos e processos similares incluem cognição, sensiência, consciência, ideia e imaginação. O pensamento é considerado a expressão mais “palpável” do espirito humano, pois através de imagens e ideias revela justamente a vontade deste.”

 

O que é que está acontecendo em nossos dias?

As pessoas estão deixando de PENSAR!

Sim, porque há máquinas que fazem isso por elas!

Deixou de existir a figura do dono da vendinha com seu pitoresco lápis pendurado na orelha... Os atuais estabelecimentos de comércio não têm mais aquela prosaica e poética “Caixa registradora Burroughs”, com suas teclas redondas, seu tilintar característico e o ruído seco da abertura dos escaninhos em que se guardavam notas e moedas... Agora é um aparelhinho quase silencioso, sem nenhum charme ou graça... E se você, ao pagar uma conta de R$ 55,25, perguntar à operadora do caixa se quer R$ 5,25 para facilitar o troco, ela olhará com cara de “não tô entendendo” e consultará o computador!

No campo educacional, aquelas pesquisas que nós, da velha guarda, fazíamos em livros próprios ou nos das bibliotecas, agora é feita pelo computador, no Google! E nem há mais a necessidade de transcrever para os trabalhos, como fazíamos demoradamente. É só “control C, control V”!!!

 

Assim, o computador passou a substituir nossa função cerebral...

E isso nos remete a um episódio até recente de nossa história. O Brasil conheceu os primeiros computadores entre o final dos anos 1960 e início de 1970. Em 1972, foi criada a CAPRE – Comissão de Coordenação das Atividades de Processamentos Eletrônico. Dois anos depois, em 1974, surgiu a primeira empresa brasileira de fabricação de computadores: COBRA – Computadores Brasileiros S. A.).

Aliás, por essa ocasião, o computador – estrupício estranho para nós – era denominado pomposamente de “cérebro eletrônico”!

 

A mais dolorosa constatação, porém, é que – em sua incontida evolução – os computadores estão, a cada dia, mais se humanizando! Há robôs que perguntam e respondem com lógica, dialogam e até exprimem sentimentos e expressões característicos dos humanos! Na via inversa, os seres humanos estão cada vez mais se “maquinizando”, se robotizando, abrindo mão de sua maravilhosa capacidade de pensar, raciocinar, criar, inovar... e amar, em seu sentido mais preciso e elevado, que envolve o pensamento!

 

Chega a parecer que, nos dias atuais, apenas 5% das pessoas pensam; 15% delas pensam que pensam e 80% não pensam, porque quem – ou o quê – faça isso por elas!

 

É: o ser humano está mesmo deixando de existir!

 

 *J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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